ANO: 25 | Nº: 6362

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
02/08/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Sobrevivendo no inferno

Em maio deste ano, foi noticiado que a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) incorporou o álbum “Sobrevivendo no inferno”, do grupo de rap Racionais MC’s, na lista de obras que constitui leitura obrigatória para o vestibular 2020. As músicas do quarteto paulistano foram enquadradas no gênero poesia e figuram ao lado de sonetos selecionados de Luís de Camões.

Conforme o coordenador executivo da comissão organizadora do exame, José Alves de Freitas Neto, os jovens terão uma abertura de “caminho para ter leitura do mundo” com o álbum do grupo. Na reportagem da Revista Galileu (presente no site da universidade), que explica por que houve essa escolha, o cientista político Gabriel Gutierrez declarou que a música dos Racionais MC’s representa “uma forma de filosofia. Pensar sobre o ser das coisas. Uma filosofia da ação, de como agir no mundo”. A nota da Unicamp ainda diz que as músicas possuem “relevância estética, cultural e pedagógica para a formação dos estudantes do Ensino Médio”.

Mas não há surpresa. Rogério de Souza Silva, doutor em Sociologia pela própria Unicamp, afirma que Mano Brown, líder do grupo em questão, é um intelectual. Tal assertiva foi realizada na tese “A periferia pede passagem: trajetória social e intelectual de Mano Brown” (2012), aprovada por 5 doutores e que conta com 302 páginas. Para o autor, Rappin’ Hood e Emicida também podem ser vistos como intelectuais. A razão? Todos contribuem para organizar a cultura e ajudam jovens pobres e negros a alcançarem uma consciência para reivindicar seus direitos.

Todavia, o reconhecimento de alguém como um intelectual pela academia não ocorre sem um engajamento político à esquerda. Os Racionais MC’s já gravaram videoclipe de música em homenagem ao comunista, terrorista, assaltante de bancos e ex-chefe da ALN, Carlos Marighella; Brown já afirmou estar entristecido por descobrir que “a periferia passou a ser de direita”, e que os pobres não desejam mais a luta de classes (somente luta por conforto e segurança); e já declarou que a rejeição política a Lula e Dilma se deve pela intolerância com pobres, nordestinos e mulheres. No programa Roda Viva, de 2007, disponível no YouTube, Brown asseverou que Lula estava certo ao não ter entregue um amigo que “deu mancada” aos inimigos quando foi indagado sobre os escândalos de corrupção em Brasília envolvendo o PT; em seguida, ao ser questionado se é difícil dizer ao garoto pobre e preto da periferia que ele tem que ser honesto ao invés de roubar, o “intelectual” respondeu que não considera quem rouba desonesto, visto que eles são honestos com parceiros, família e “com os mano que tá preso”, acrescentando que um assaltante de banco não é desonesto em razão da sociedade não ser honesta, o que faz com que todos sejam criminosos.

Para os “especialistas”, não há nada mais próximo de Camões, mais instrutivo e pedagógico para os jovens, mais filosófico e mais conscientizador do que os Racionais MC’s e Mano Brown. Esses engenheiros sociais que agem em nome de uma ideologia, conduzem bovinamente a academia para a periferia da razão.

Thomas Sowell foi sutil ao dizer que “nós estamos vivendo em uma era em que a sanidade é controversa, e a insanidade é apenas outro ponto de vista – e degeneração apenas outro estilo de vida”. A sanidade já foi enviada para o inferno.

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