ANO: 24 | Nº: 6059

Marcelo Teixeira

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Advogado e professor universitário - Urcamp
04/08/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Hipocrisias respeitosas

Na última eleição municipal circulou um vídeo nas redes sociais mostrando determinado candidato participando de um evento, culto ou missa (não lembro ao certo) de uma religião diferente da dele. A pessoa que filmava – ou alguém muito próximo – narrava o episódio enfatizando a hipocrisia da atitude do candidato.
Desde então, penso em escrever sobre o assunto, rememorando antigas campanhas onde era praxe esse ecumenismo eleitoral, sobretudo nas eleições municipais. Os candidatos visitavam igrejas, terreiros, celebrações, cultos, missas e sessões de diferentes religiões durante a campanha eleitoral e esta prática, pelo que lembro, além de ser usual não era mal vista pela maioria do eleitorado.
Se, por um lado, aquilo poderia representar uma conduta hipócrita do candidato, por outro representava uma atitude de respeito às crenças alheias. Tudo bem, que o objetivo era captação de votos e que não se tratava de uma prática repetida em períodos não eleitorais, mas isso também não era mal visto, pois naquele tempo não havia tanto radicalismo nem tanta intolerância religiosa como se vê hoje. Pouco importava até a religião do candidato. E os partidos não tinham vinculação com religiões, igrejas ou crenças. Em rápida pesquisa na internet descobri que a primeira sigla, pós-ditadura, que obteve registro definitivo assumindo explicitamente uma posição religiosa foi o PTC (Partido Trabalhista Cristão, ex-PRN, que elegeu Collor). Na mesma época, não era segredo para ninguém que os partidos comunistas eram reduto de ateus, mas que, respeitosamente, não faziam militância ateísta. Hoje nós temos, além do PTC, o PSC (Partido Social Cristão), o DC (Democracia Cristã, do Eymael) e o PRB (Partido Republicano Brasileiro) que apesar de não ter a letra “C”, de Cristão, na sigla, tem uma franca vinculação com uma igreja evangélica muito conhecida no Brasil.
Sinto saudades daquele tempo em que a crença ou a descrença não eram motivo de discórdia. Sinto saudades daquele tempo em que o respeito às convicções alheias estava acima da incoerência, infidelidade ou hipocrisia religiosa. Neste passado não muito distante estas posturas convenientemente ecumênicas eram até sintetizadas com humor quando a gente dizia que determinada pessoa “acendia uma vela para cada santo”. O vivente ajoelhava na missa, frequentava o batuque, tomava passe na sessão espírita e não dispensava a benzedeira para curar o seu bebê. Desde que eu me conheço por gente, testemunhei este Brasil ecumênico que, como disse, podia até ser hipócrita por um lado, mas era muito respeitoso por outro.
Hoje tenho imensas dificuldades em lidar com fiscais da fé, inclusive e sobretudo dentro da minha própria igreja. É o tipo de coisa que não traz nenhum efeito positivo para a igreja do intolerante. Já pensei até em abandonar minha igreja por causa desse tipo de gente. Como se não bastasse a oscilação natural e inevitável da nossa fé, ainda ter que enfrentar a crítica de quem tem mais apego ao catecismo e à liturgia do que ao próprio evangelho e sua essência, é muito complicado. Todavia, o próprio Cristo avisou que não seria fácil. Penso como o Papa Francisco: “aquele que procura uma igreja deve encontrar as portas abertas e não fiscais da fé.” A igreja deve ser local de acolhimento, de conforto espiritual e não de constrangimento e reprimendas pelos pecados que todos cometem e não negam.

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