ANO: 24 | Nº: 6059

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
04/08/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O magistério desfalecido

A tendência dos (sobre)viventes do outrora é relembrar os professores, ensino e colégios do passado para fazer comparação com as novas pedagogias, os métodos e condutas dos alunos e concluir que “naquela época” a educação era mais sólida, bem melhor, “aprendia e se respeitava mais”.
A melhor postura, todavia, deve ser a “contextualização”, ou seja, avaliar o presente no âmbito das relações vigentes, valorizar os aspectos positivos da modernidade, numa época em que sobressaem a virtualidade, o telefone, a internet, a televisão digital, outros tempos. Quem não se surpreende com a rapidez com que o neto maneja o computador; ou uma criança descobre os aplicativos; ou conserta os mais intrincados aparelhos sem ter qualquer conhecimento prévio deles?
Comecei o magistério quando os alunos se erguiam na chegada do professor; e somente sentavam depois de autorizados; do silêncio respeitoso e submissão à disciplina; do distanciamento sedimentado na autoridade da cátedra; da pontualidade rigorosa; das tarefas e sabatinas. Não sei se agora resistiria ao uso de tabletes, de notebooks que aparentam transcrever a exposição, de celulares e os toques das mensagens que se anunciam; dos olhos que não desviam das telas. E tente advertir os usuários. Logo virá a pecha de “retrógrado”, “desatualizado”, “antiquado”. Sem falar na possibilidade de agressão verbal. E, talvez, o dissabor da violência. É verdade, amigos, não é fácil ser professor. Uma das razões porque o exercício do magistério não atrai.
É o que revela uma recente pesquisa nacional que ouviu mais de dois mil entrevistados (professores da educação básica, ou seja, Infantil até o Ensino Médio) tanto da rede particular como privada, com margem de erro de dois pontos percentuais. A maioria das respostas foram colhidas de mulheres entre 43 e 17 anos de carreira (68%), sendo 56% da rede pública; 70% com cursos de especialização e 20 horas emanais. Professores que escolheram a profissão pela afinidade com ela (78%); ou pelo prazer em ensinar (34%); ou ainda pela aptidão ou talento para ser professor (13%). De todos, somente 21% afirmam estar totalmente satisfeitos coma atividade docente, enquanto 33% se dizem absolutamente insatisfeitos. E quase a metade (49%) não a recomendaria por considerá-la “desvalorizada”.
Embora se saliente ali que a remuneração nacional média seja de R$ 4.451,56, o que não se constata em muitos estados, como o nosso, reivindicação salarial não é uma das maiores exigências pleiteadas.
Pontuam-se, por exemplo, como medidas práticas para a valorização do magistério, entre as duas mais importantes, a necessidade da “formação continuada (69%)” e “a escuta dos docentes para a formulação de políticas educacionais (67%)”. Outras: a “restauração da autoridade e do respeito à figura do professor (64%)”; e o “aumento salarial (62%)”.
Por “formação continuada” está a melhor qualificação dos docentes, o que será, precipuamente focado no ensino acadêmico, também “contextualizado”, ou seja, adequado ao que o professor terá de enfrentar na sala de aula, e não somente o aparato teórico, mas municiá-lo instrumentos que o habilitem a bem disseminar seu saber como ainda na implementação de estratégias próprias para o lugar onde ensina, suficientes para identificar a situação concreta. Aqui, os professores almejam que as secretarias de educação de todos os níveis promovam maior número de cursos de aperfeiçoamento, de recursos digitais e outros procedimentos, salientando eles que em mais de 84% dos casos tais instituições se mostram omissas. Registre-se que essa “formação suplementar” desejada encontra óbice no fato que muitos docentes têm que se “desdobrar” para conseguir sobreviver, deslocando-se de uma escola para outra, a fim de completar sua renda vital (mais de 30% assim agem, universo onde apenas os outros 70% contentam-se com a remuneração básica).
Também as políticas educacionais devem ser pensadas em conjunto com os professores que, enfim, são os caudatários e operadores delas, quem as vão deduzir e aplicar.
A insatisfação profissional, arremata um especialista, acontece quando o professor tem dificuldade em ver concretizar-se sua motivação na prática, em vista da estrutura de sua formação, de preparo e de apoio muito frágil, com condições de trabalho nem sempre adequadas.

Fonte: “Profissão Docente”, pesquisa recentemente divulgada, iniciativa do Movimento Todos pela Educação, Itaú Social, Ibope Inteligência e Conhecimento Social.

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