ANO: 24 | Nº: 6014

Fernando Risch

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Escritor
10/08/2018 Fernando Risch (Opinião)

Cada povo tem o representante que merece

Eu tenho um amigo que diz que o Brasil merece o pior dos piores nestas eleições. Aliás, merece não. Precisa. Segundo ele, o poço é mais longo do que se imaginava e ainda faltam alguns metros para o fundo. Na sua tese, o brasileiro precisa votar pior do que jamais votou e sentir na pele nos próximos quatro anos que eleição não é brincadeira, que o palhaço está para o circo assim como o político está para a política, e não o contrário.

Sua teoria, ainda não publicada no meio acadêmico, diz que se o Brasil seguir nesse trotezinho passivo-agressivo, com dedos sendo apontados, com orgulhos feridos, com diálogos malsucedidos, debates pela metade e de ideólogos loucos com medo da sombra, a instabilidade seguirá. Segundo ele, assim como outro grande sábio bajeense, que certa vez me recomendou suco de limão para combater a azia, para acabar com a instabilidade o Brasil precisa da maior instabilidade dos últimos 30 anos.

Esse meu amigo, o Lipe, é homem esperto, muito à frente do seu tempo. Mudou-se para o Canadá há mais de um ano, já prevendo o desastre. Trocou o caos político e o calor de janeiro sentado frente a uma mesa de plástico amarela pintada com o logo da Skol, por invernos abaixo de vinte graus negativos, verões fora de época e amenos, que nem o Carnaval de Bagé, e Justin Trudeau. Como eu disse, Lipe é esperto e, na balança dos prós e contras, usou a razão.

Agora, ele destila verdades em Montreal, como bom tudólogo que é. E nesta tudologia lipiana, ele nunca esteve tão certo. Talvez o Brasil mereça mesmo isso, o pior dos piores. Uma ruptura tão gritante no meio político que não apenas fará a população apertar o cinto, mas fará o cinto cingir-lhes da bacia ao pescoço com tanta força ao ponto de vomitarem.

E lá naqueles espectros de futuro, daqui quatro anos, quando chegar a hora de repensar, se tiverem a oportunidade para tal, dirão novamente "Nunca mais!" e darão risada pela epifania criada, com aquele sentimento de déjà vu, sem lembrar ao certo quando foi o outro momento em que já haviam dito aquilo, pois lhes faltarão memória, que sempre falha quando se coloca, como diria o poeta, o aparelho urinário à frente do cérebro.

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