ANO: 25 | Nº: 6210

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
11/08/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Mathias

Há alguns anos, estando no estrangeiro, o Mathias me telefonou. Quando soube que eu estava longe tratou de desconversar. Intrigado, liguei para um companheiro. E soube que o Liader, seu compadre, havia falecido.
Agora, a sina prega outra peça. Estava num táxi, após o pouso no Rio de Janeiro, quando amigo transmite a dolorosa notícia de que havia sucumbido o amigo de mais de sessenta anos de fraterna convivência.
Assim também aconteceu quando minha mãe se transformou em estrela; e quando outros que estimava se foram: estava distante. Se, por um lado há o malogro da ausência, sem poder mirar pela última vez, abraçar os parentes e chorar, em outra face há um fato consolador: a imagem que permanece é da presença física; inteira, visível. É a pessoa completa, com seus sorrisos e afeto, a fotografia da perenidade.
A amizade que se destina à solidez começa nos primeiros anos do ginásio, nas matinês dos seriados. A vida dos meninos que recém abandonam as calças curtas, ansiosos para crescer; as partidas de futebol no meio das ruas com uma bola de tênis; os livros de aula emprestados; os recreios; as missas, novenas e procissões; o medo do inferno. Nós, contudo, tivemos outro amálgama: a zona, o espaço sentimental que une a vizinhança das quadras, irmandades que professavam apoio e zelo, ligadas na fidelidade das crenças e sinceridade do apreço.
Mathias morava perto da Cobagelã, onde seu Henrique e dona Maria tinham a tinturaria. E um Nash verde para entregar as vestes lavadas. Dobrando residia o Felipe Monmany, o primeiro aliado a quem ele se dedicou com esmero, carne e unha, solidário até o fim; no rumo do colégio, mais adiante, minha casa.
Depois, tempos dos bailes do Recreativo, as tardes eram no clube jogando sinuca, aí também Liader, todos na diretoria infanto-juvenil, Bochão, Habiaga, Ferrinho. Mathias despontando como o orador que já impressionava.
Adiante, a busca por melhores condições para o futuro profissional, os internatos, os vestibulares, os bajeenses lotavam a pensão da dona Filhinha, na Barros Cassal. Eduardo e Felipe, Djalma, Clóvis Pereira, Benevenga, Ubiratã, Paulo Antônio; os irmãos Simões Pires, de Livramento; Obino, George e mais tarde Mathias habitavam o Lar Americano, perto do Colégio Rosário. Mas a reunião era diária. Todos jovens remediados que não tinham maiores folgas financeiras contentando-se com o cinema de fim de semana; o futebol; os grêmios estudantis.
Quando Mathias ingressa no curso jurídico logo sobressai sua liderança natural, sua elegância, destaque nos júris simulados com Pedro Simon e outros acadêmicos para se elevar, desde então, à concretude de um porvir de sucessos. Concluída graduação queda-se na capital, iniciando o noviciado político quando chefia o gabinete de Justino Quintana, então secretário da Educação do governo brizolista. Nas férias todos retornavam para os jogos na Praça de Esportes, as tardes dançantes na casa das Moreira, os primeiros namoros.
Mathias foi, seguramente, o tribuno que encantava e convencia, um dos melhores advogados criminais que a cidade conheceu. Também discursador contumaz, eu gostava de me desculpar quando não aceitava a palavra depois de Mathias, Jaime Tavares ou Luiz Maria Ferraz, todos de rara fluência verbal, a frase adequada, a imponência, a palavra correta.
Também foi um dos políticos mais relevantes que atuou por aqui. Voltando para Bagé depois da extinção do velho PTB, desde logo ajudou a construir o MDB na fase do bipartidarismo, tornando-se o líder natural dos seguidores do trabalhismo e vereador de histórica votação.
Quando houve nova configuração partidária, foi na sua casa e de Elenara que se fundou o PDT, lavrando ele a primeira ata, entidade que presidiu com destemor e sapiência. Tive a ventura de acompanhá-lo, com outros poucos militantes, na evangelização dos adeptos, por vilas e distritos, a fim de organizar a nova estrutura, o que fez com seu carisma e esforço.
Em 1988, quando o partido entendeu que eu deveria cumprir o calvário da candidatura, não tendo logrado convencer ninguém a aceitar o encargo para vice, Mathias prontificou-se a compor a chapa, iluminando a campanha com seu verbo e disposição; e com enorme sacrifício pessoal, pois sua família já estava em Porto Alegre, e, pior, sua amada filha Kuka havia sofrido grave acidente no trânsito, o que exigia sua constante assistência.
Revelei em outros artigos como fatos circunstanciais e fortuitos têm comandado minha vida e a desviado para caminhos sequer imaginados. É a sincronicidade ou coincidências significativas. Nisso muito devo a Mathias por me levar para a capital como seu substituto na Casa Civil, outra atividade em que ele brilhou. É que por estar lá permanecendo como remanescente no governo de Alceu Colares - Mathias fora indicado para a Corte Militar- despertei para a disputa de vaga no Tribunal do Estado, passando a integrá-lo como representante do Quinto Constitucional. Se tivesse ficado aqui, possivelmente outro teria sido meu destino.
Por isso, lamento o amigo que se afasta, deixando o rastro de seu talento, coerência e exemplo, um legado para os seus e todos que o reverenciam neste instante de dor e saudade.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...