ANO: 25 | Nº: 6359

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
14/08/2018 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Viver após uma perda

No topo da lista de situações estressoras e capazes de levar o ser humano à depressão está a morte de alguém que se ama. A perda de uma pessoa querida, a interrupção na linha da vida e todas as redes de conexões afetivas que faziam sentindo juntamente com planos e expectativas esperando abruptamente por uma nova direção, um novo jeito de se relacionar.

Cada pessoa reage a perdas de forma única, não há receita de como encarar nem certezas sobre o estrago que pode trazer tal ruptura. O fato é que algumas partidas atravessam a existência de quem fica e, não raro, nada mais volta a ser como antes durante um longo período.
Somente com o passar do tempo, novas perspectivas e expectativas poderão surgir, e quanto será esse tempo não é possível precisar. Para alguns é questão de meses, para outros até mesmo anos. Nesse espaço de tempo é necessário cicatrizar as emoções e dar nova significação e novo espaço para a relação que foi interrompida, além de se reposicionar diante da própria existência apesar do luto.
Há pouco assisti a um filme sobre esse tema. Dean: a vida e outras piadas. O protagonista é um jovem e talentoso ilustrador vivendo o trauma da recente morte da mãe e o quanto essa situação o paralisou. O personagem é original, com dores verdadeiras e reações desconcertantes como, por exemplo, não saber lidar com a forma aparentemente positiva e prática com que seu pai enfrenta isso tudo. Escrito, dirigido e protagonizado por Dimitri Martin, aborda o tema sem clichês, ilustrando exatamente esse ponto em que é difícil voltar a ser otimista e acreditar que vale a pena voltar a fazer planos. Dean está com a criatividade truncada, preso ao tema da morte. É bonito acompanhar que é exatamente por esgotar este tema, muitas vezes tabu e considerado baixo astral demais para nossa sociedade, que ele vai conseguindo elaborar sua dor e retomar a vida e seus relacionamentos.
É uma obra longe de dar a receita para superar o luto, mas inspira por mostrar humor na dor e originalidade na condução do longo arrastar do tempo entre a dor e a vida voltar a ter cor.


"Algumas partidas atravessam
a existência de quem fica"

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