ANO: 25 | Nº: 6255
15/08/2018 Luiz Coronel (Opinião)

O tempo. Sim, o tempo!


1. Tia Mimosa, com seu olhar arguto sob o pince-nez, sentenciava: "Existe uma coisa que nos envelhece muito: o tempo". Guardo comigo a benevolente convicção de que o tempo não existe. Existem apenas as estações em rodízio. O tempo, tal o percebemos, seria uma invenção dos relógios, uma alucinação dos calendários. Os seres vivos, estes sim, inclusos nessa abóbada estática e permanente, povoada de ruídos e silêncios, a que chamamos tempo, vivenciam este ciclo fatal de nascer, crescer e deixar o boné no cabide, partindo para o País do esquecimento.
2. Sim, envelhecemos."Velho é quem tem um ano mais do que a gente", assim queria o lírico e gracioso poeta Quintana. A velhice sentaria numa pedrinha de beira de estrada para descansar e nunca nos alcançaria. A vida humana esticou, dobrou seu curso. Os faraós duravam 30 anos. Nos anos 1930, o brasileiro dava os trâmites por findos na casa dos 40 anos. Vivemos mais. A Ciência, a Medicina, o escambau dilataram nosso trânsito com os pés sobre o planeta. Para muitas pessoas, o tempo é uma cadela louca mordendo nosso calcanhar.
3. Quando envelhecemos? O dia no qual as esperanças couberem em uma pochete e as lembranças saltarem para fora da carroça, envelhecemos. Equilibrados os pratos, memórias e sonhos, estamos lépidos e faceiros. Convém constatar que a dispensabilidade humana, hoje, mais do que nunca, corre sem freios. Cada geração tem a percepção de que está inaugurando mundo. Os jovens de hoje, detentores das confidências eletrônicas, segredos da informática, contemplam os senhores grisalhos como se fossem passageiros da Arca de Noé. Ou, na melhor das hipóteses, guerreiros de outra tribo.
4. Na Índia, manadas de cavalos selvagens deixam as pradarias secas em busca da verde primavera, em longínquas paragens. Os cavalos velhos são corridos a coices da tropa para que não se incorporem à excursão no longo trajeto de percurso. Será, no mínimo, deselegante aproximar o destino dos cavalos indianos à descartabilidade humana em nossos tempos. Porém, descabido não me parece antepor essas realidades.
5. O tempo, ora é parceiro, ora é adversário. Fórmulas para a felicidade existem às dúzias nos precários livros de autoajuda. A vida, às vezes, parece feita de momento sublimes emoldurados em chatices quotidianas. A arte, o amor, os bons vinhos e um saldo positivo no banco são recomendáveis. Não permita que o desassossego político nacional e o latir do cachorro do vizinho perturbem sua paz.

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