ANO: 25 | Nº: 6360

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
18/08/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Mestre Jonas

Jonas fora criado pelos lados do Piraí, quando esse era caudaloso e fundo. Os pais trabalhavam nas estâncias ao redor. A mãe cozinhava para os donos quando iam lá, o que não era comum pela estrada que o inverno virava lodaçal, só o caminhão boiadeiro conseguia domar puxando nas quatro; e com os pneus acorrentados, as borrachas sangrando. O pai, posteiro, comandava uma reculuta de poucos peões desde madrugada derrubando geada, os ponchos areados arrastando pedaços de frio. Desde cedo quis colocar Jonas na lida do campo, mas o filho gostava era de pescar lambaris no açude que mirava o rancho. Encantava-se com o colorido deles que, gratos, nadavam em festa depois que ele os devolvia à água. À noitinha, sentado na margem, distraído nas lonjuras tartamudeava coisas desconexas enquanto os peixinhos, de olhos matreiros, aplaudiam os murmúrios, bailando no escuro. Não admira que na época de servir Jonas preferisse ser barqueiro das escunas que se moviam pelos oceanos de Bagé e iam pelo Rio Negro até praias. Levava mascates que percorriam os rincões vendendo chita e espelho; contrabandistas que traziam bujões de gás para aquecer as noites dos cabarés e outros que iam à cata de boi gordo. Algum bandido viajava para o exílio até que prescrevesse possível pena. Também peregrinavam fugitivos da noiva abandonada às beiras do casório na delegacia. E até vendedores de enciclopédias, enfim, um mundo de gente.
Lá ia Jonas ao leme, para lá e cá, parando e descarregando, certa vez se safou de tempestade no Valente. No porto da Bolena, bebia um café. Atingido por um raio que feriu o velame, descansou uns dias no Espantoso. E outras entregas esquisitas fazia, como o clister enviado para um aramador do Jaguarão atacado pelo nó das tripas; um lote de garrafas de canha para o boliche das Palmas; um surrado almanaque do Doutor Humphreys, de 1940, encomendado por uma madame de Aceguá. Uma carta rosa a ser confiada a misteriosa prenda, que “devia estar trajando uma veste azul” lá para os lados do Viola. Até água de cheiro para guria de má vida que se evadira para o bordel da campanha.
E assim passava o tempo para Jonas, sem hora para amar ou odiar, indo e vindo pelos abundantes rios de Bagé, até que uma vez ouviu uma voz (seria o Senhor?), que lhe sussurra, Jonas chega dessa vida sem graça, nem descontas para a previdência ou para o plano de saúde, casar nem aí, meu filho, abandona essas águas perigosas e vai para a cidade que te reservo uma surpresa. E assim ele foi.
Jonas encosta a quilha, junta à trouxa. Visita a mãe para receber a bênção. O pai lhe empresta uns dólares ganhos na cancha reta do Povo Novo. Uma carroça lhe dá uma carona até a Coxilha do Haedo. E se vem de mala e cuia. Atravessa o campo dos guenoas. Os celeiros escondidos dos jesuítas. Mitiga a sede no passo da Encruzilhava, ali onde os leiteiros benzem os tarros de leite. Um moço gentil perto da Taipa o traz numa perua até o Forte aonde repousa à sombra dos muros. Ali, a sentinela lhe diz que acelere, pois há boato na cidade que estão distribuindo casas gratuitas, para toda a vida. Seria isso a promessa do oráculo? Desvia da vila dos Corvos e ao deparar com uma capelinha faz o sinal da cruz. Lá de cima arremete rumo sul. De longe vê um vapor que navega pelo Rio Candal. Suado, adormece na macia relva que embeleza a Canhada do Sapo. Desperto, não resiste as vagas. Fica nu e se arroja nas vagas que enchem a panela.  Refastela-se, dá braçadas de contentamento. Quando submerge lhe vem o assombro. Pois não é que era o dia de plantão do monstro que vivia no fundo, cujo dorso vai até a matriz baleada? Fim para os folguedos. Jonas é tragado. Engolido. Piloto experiente, logo faz das mãos os remos e se aprofunda no íntimo do animal boiando em sucos azedos que enchem o bucho dele, temeroso da caverna malcheirosa de onde partem gases que o arrepiam. Marinheiro diplomado Jonas se queda no encosto de umas vértebras e torna a anomalia sua casa, dentro dela guarda as gravatas, os ternos de linho e conclui que ali a vida é mais fácil, nada incomoda seu silêncio e paz, abundam sardinhas e caviares, o lugar é mais seguro que seus navios. Aqui está protegido dos trovões que ouve lá fora. Não tem hora para despertar ou dormir. E assim se passam três dias e três noites, sem gastar, só no mole, despreocupado com o imposto de renda, a conta de luz ou o episódio da novela. Até que a Voz ordena que a coisa o vomite. Cuspido para a superfície, era dia radiante de outono, Jonas se ergue, limpa a gosma que ainda beija sôfrega sua pele, e cheio de glória o santo homem vai para sua Nínive, uma cidade fabulosamente grande, tão comprida como a caminhada de três dias. E a percorre, andando o dia inteiro até que sai dela.  Fica ao lado do nascer do sol, constrói uma cabana, esperando para ver o que acontece. E o Senhor faz nascer uma mamoneira que cresce de modo a fazer sombra para a cabeça de Jonas. E livrá-lo da insolação.

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