ANO: 25 | Nº: 6401
22/08/2018 Luiz Coronel (Opinião)

Penso, logo insisto

1. Gostaria que as eleições de 2018 fossem uma folha em branco na qual escreveríamos um poema, uma nova mensagem, um novo encaminhamento de honradas condutas para nosso país. Ou fosse um amplo terreno, onde arquitetos e engenheiros ergueriam magnífica construção, com janelas para um descortinado horizonte. Essa concepção exigiria de nós uma rocambolesca esperança, porém,fomos, pouco a pouco, dissipando-ano espinhoso caminho.
2. A quem atribuir a culpa de nosso extravio? Devemos responsabilizar o vento, os fantasmas, as avestruzes do campo? Quem nos levou ao beco da amargura agora nos promete largas avenidas. Quem cuspiu no nosso prato procura nos seduzir com deslumbrantes, suculentos cardápios. Nosso reino perdeu suas verdades. Perdoem-me a sinceridade: as palavras de nossos dias tornam-se pneus furados que não nos levam a lugar nenhum.
3. Uma eleição que não elevar seus pilares sobre sólidasesperanças é uma edificação cujos pilares estarão fixados em terreno movediço. A última vez em que nos inundaram de sonhos solidários esqueceram que alguém teria de pagar a conta. Deu no que deu. Respeito compromissos utópicos e opções partidárias, mas um sistema que gera 13 milhões de desempregados, 3,5 milhões de moradores de rua, 64 mil assassinatos/ano, 60 mil estupros, tem sua vulnerabilidade escancarada ante nossos olhos.
4. Não quero ser o algoz de seu otimismo, meu eventual leitor. Sou um homem contente de ter nascido, pleno de projetos, ungido por sonhos. Mas vamos e venhamos, não dá para a gente se mover no cenário sem saber qual o papel que nos compete. Chegamos a um momento no qual a mentira e a verdade não se repelem, se abraçam, se entrelaçam e dançam amarelinha ante nossos olhos. Pensar o futuro com ideias velhas, funestas práticas corruptas, é viajar para o caos assobiando um samba de breque. Ou o Brasil vira a página, ou se afoga na sanga lamacenta das torpezas que nos cicatrizam.
5. Não tenho filiação partidária. Tive convites para graduadas candidaturas. Sou um escritor, e "o dever de um artista é comprometer-se com a vida", como escreveu Erico Verissimo. Penso que muito mais lúcido do que essa nublada fronteira entre esquerda e direita seja nos definirmos como aliados ao mutirão dos que querem uma reformulação profunda de nossas instituições àqueles que optam por sustentar a manutenção desta (des)ordem contemporânea. Ponha naftalina em sua radicalização ideológica. As roldanas do mundo giraram mais do que nossas utopias. As eleições de 2018 serão batismo ou funeral de nossas teimosas esperanças.

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