ANO: 25 | Nº: 6399

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
25/08/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Pesquisas

Arredondando para cima, de cada 10 brasileiros, quatro votariam no único candidato ficha suja entre os presidenciáveis, segundo os dados recentemente divulgados pelos principais institutos de pesquisa do país. Aí, quem não vota nele, olha para um lado, olha para o outro, fica procurando os quatro entre os nove que o cercam e... nada! Vai ver que é porque, por pura coincidência, está cercado somente pelos outros seis. Aqueles grupos de quatro estão distantes, concentrados em outro bairro, em outra cidade, em outro estado ou talvez até em outra galáxia.
Quem acompanha minhas mal traçadas linhas há tempos, sabe o quanto antipatizo com pesquisas de intenção de voto. E esse sentimento só aumenta, na medida que os prognósticos não se confirmam, evidenciando a pouca credibilidade de seus resultados, sobretudo nos últimos pleitos. Enfim, há sobradas razões para tanta antipatia e desconfiança a essa tentativa indecente de influenciar os eleitores, se aproveitando da ânsia predominante por não desperdiçar o voto em candidatos que não tenham alguma chance real de ganhar.
A tática é a mesma de sempre: as primeiras pesquisas apontam como preferidas aquelas candidaturas mais óbvias, de representantes de grandes partidos ou coligações, de pessoas mais notórias, enfim, para não causar surpresas e desconfianças, mostra algo plausível e previsível. Todavia, é nessa fase inicial que o risco de manipulação é maior, pois é ele que cria uma expectativa de polarização, revelando quem tem alguma chance e quem já é carta fora do baralho. Neste momento não há nada que possa confirmar que os dados são verdadeiros, exceto os dados divulgados pela concorrência, que costumam ser muito parecidos, mais ou menos como ocorre com o preço da gasolina em Bagé.
Assim como nos postos de combustíveis de nossa cidade, essas pequenas variações na terceira casa decimal do valor dos combustíveis não são indicativos seguros de que não houve alguma combinação de valores entre a concorrência.
Depois, à medida que a data da eleição se aproxima os institutos começam a revelar o quão volúveis são os eleitores brasileiros, que ficam mudando de opinião semanalmente e, pior, mudando de orientação ideológica, preferência partidária etc. Em meu sentir, esse é o calcanhar de Aquiles das pesquisas. A evidência da manipulação! Não é crível que tantas pessoas mudem tanto de opinião e tão rapidamente e sempre às vésperas da eleição. Parece claro que quanto mais se aproximar o dia da eleição, mais fiel tende a ser o resultado da pesquisa, até para tentar acertar os resultados e ganhar credibilidade.
Admitindo que os eleitores não são tão volúveis e que as variações entre as tendências iniciais e finais extrapolam o percentual de indecisos, não resta outra conclusão se não a de que os dados iniciais não correspondiam à verdade. A grande questão que fica depois disso tudo é: até que ponto esse induzimento fictício pode interferir na realidade das intenções de voto? Sem dúvida, ao apontar os candidatos que supostamente teriam chances reais de se eleger, cria-se a figura do voto útil, provocando a migração de muitos votos dos candidatos "sem chance" (segundo os institutos de pesquisa) para os candidatos "com chance".
Traduzindo, no pior dos cenários, seria possível que um cenário fictício inicial, absolutamente manipulado pelos institutos de pesquisa, possa se transformar em um cenário real ao final das eleições, interferindo decisivamente no resultado do pleito. Só seria possível cogitar esta influência se o cenário inicial se confirmasse ao final. Já quando ocorre uma grande oscilação na preferência do eleitorado – o que é mais comum nas eleições – ficará a dúvida se os eleitores são, de fato, muito volúveis e indecisos, ou se a tentativa dos institutos de interferir no resultado das eleições falhou. Por razões óbvias, minha tendência é acreditar que os eleitores não são tão volúveis como os institutos de pesquisa fazem parecer.

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