ANO: 25 | Nº: 6402

Fernando Risch

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Escritor
31/08/2018 Fernando Risch (Opinião)

Pensei que estas eleições seriam mais pesadas

É muito provável que eu tenha me preparado para essas eleições, como Tolstói certa vez descreveu a lenta morte do moribundo Ivan Ilitch, e por essa razão tudo parece muito tranquilo, sem percalços. A campanha eleitoral está acontecendo naturalmente, cada candidato no seu canto, às vezes invadindo o canto do outro, mas tudo numa agressão cordial. Propostas daqui, gritedos de lá, mas nada fora da normalidade.

Como os familiares ficcionais do russo morto prepararam-se para o luto, eu me preparei psicologicamente, sofrendo a conta gotas dia após dia, até chegarmos na campanha eleitoral, e, agora, me vejo tranquilo. Pensei que veríamos uma enxurrada de mentiras se fazendo como concretudes, o que de fato estamos vendo, mas parece que as instituições se prepararam para bater de frente com a inverdade, e tudo se resolve num clique de fact checking e a mentira não para em pé.

O candidato que eclodiu do ovo da serpente segue por aí, falando o que bem entende, dando e levando broncas; comedido até, talvez por estratégia, talvez pelo receio de não saber onde está pisando. Mas deixemos o candidato do ovo da serpente de lado. Todos têm um limite, inclusive ele.

Temos vários candidatos, todos também parecendo comedidos. Uns por tentar passar uma imagem diferente, outros por falta de conteúdo, fora aquele lá, que não tem conteúdo mas não tem nada de comedido, que brinca de teoria da conspiração e que falou aquilo e aquela outra coisa e todos deram muita risada. Aquele candidato é triste. Seria engraçado, se ele não estivesse tentando ser presidente. Mas deixemos de lado aquele candidato lá também, na sua loucura pessoal.

O que quero dizer, mesmo sem dizer, é que estas eleições estão tranquilas. Mais tranquilas do que eu imaginava. Eu sempre me preparo para o pior e me chamam de pessimista; mas isso não é uma questão de perspectiva dos fatos, é uma questão de vacinação. Nos preparamos para o pior, para quando o pior não acontecer, nos sentirmos felizes; e não sermos surpreendidos caso tudo vá para o brejo.

Mas não há o que se preocupar, caro leitor, que provavelmente não entendeu nada que eu escrevi até aqui, a preocupação neste pleito é só uma. Mas, tranquilize-se, o ovo precisa bem mais do que meras duas dezenas de pontos percentuais para chocar. Ah, e se chocar, depois não adianta chorar frente à ruína. Quem embalou bebê que o carregue.

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