ANO: 24 | Nº: 8084

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
01/09/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Desalentados

De alguns anos para cá o IBGE contabiliza em suas estatísticas aquilo que denomina de desalentados ou desencorajados e que conceitua como sendo aquela parcela da população que não procurou trabalho em determinado período, acreditando que não iria conseguir por razões pessoais (falta de qualificação ou de perfil: jovem demais ou velho demais, por exemplo) ou de mercado (crise, falta de vagas, excesso de concorrência etc.), mas estiveram procurando, ativamente, por um período anterior e estavam disponíveis para assumir uma atividade.

Essa parcela da população que não é pequena (representa mais ou menos um terço dos desempregados) e é crescente na coleta de dados do IBGE (desde 2015 só aumenta) não entra na estatística oficial dos desempregados que, atualmente, é de quase 13 milhões de pessoas. Aliás, neste particular, a manipulação de dados por parte do governo sempre foi uma praxe. Desde o governo Lula que os beneficiários do bolsa-família são contabilizados como desalentados e não como desempregados, mascarando desavergonhadamente as estatísticas sobre desemprego no Brasil.

Diz a sabedoria popular que as estatísticas mostram quase tudo, mas sempre escondem o essencial e, mesmo assim, sem entrar no mérito da confiabilidade desses dados sobre desalentados, do seu mau uso por parte dos governantes e da subjetividade da sua caracterização, o aspecto mais relevante deste levantamento moderno diz respeito à identificação de um perfil que vai muito além de uma questão meramente social ou econômica.

Um fenômeno social recente e surpreendente parece estar ligado a esse sentimento de desalento reinante e crescente. Que outra explicação poderíamos dar ao fato de que diferentes campanhas de vacinação gratuita, sucessivamente, não tenham conseguido atingir as metas mínimas do governo? Gripe, febre amarela, poliomielite e até sarampo, sobram vacinas e aumenta a ocorrência de algumas destas doenças que poderiam ter sido evitadas se os índices de cobertura não estivessem tão baixos, batendo recordes históricos.

Durante a Copa do Mundo, o “país do futebol” já tinha experimentado essa falta de entusiasmo e agora nas eleições tudo indica que não será muito diferente. O desalento com o futuro político do Brasil atinge eleitores, candidatos e até partidos que relaxaram na escolha de seus candidatos, como se verifica ao examinar nominatas pífias, repletas de ilustres desconhecidos sem nenhum carisma ou popularidade, inclusive para cargos importantes.

Parece ser uma espécie de depressão coletiva que gera uma postura fatalista, inerte, inconsequente. Um cansaço que nem uma noite eterna seria capaz de recuperar, enfim, um desânimo desanimador, uma descrença no futuro típica de quem está com o pé na cova e consciente. De fato, não há muitos motivos para nos alentarmos, mas, como disse James MacArthur, “Desistir é uma solução permanente para um problema temporário.” Então, fé em Deus, força na peruca e pé na tábua. Vamos tocar em frente torcendo para que o setembro possa reverter tanto desânimo.

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