ANO: 25 | Nº: 6208

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
01/09/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O jogo em que Nelson Adams sentou na bola

Há partidas de futebol de que não se esquece. Era adolescente. Primeiro, alinho o fato.  
Na época, o Guarany acumulara derrotas perante o Bagé embora fosse tetra campeão. Para uma partida decisiva resolve precaver-se buscando atletas, tanto para “um trabalho mais alentador, mais coordenador e mais positivo no ataque”, a fim de construir escore; mas també como “ponto de atração” para levar “massa de aficionados, confiantes no sucesso de sua e radical transformação no sistema defensivo rubro”, segundo jornal local.
Nelson Adams, renomado centromédio de times da capital, era jogador do Grêmio, suspenso por 30 dias e multa de “60% de seu ordenado”, em vista de declarações publicadas.
Surgem, então, tratativas do Guarany para obter o atleta, cogitando-se até, sua troca por  Valenciano, “atualmente encostado no clube dos índios”, embora sem possibilidade de aproveitamento no tricolor eis que teria de fazer período de “aclimatação”, que o afastava como reforço.
Como a troca não se concluiu, Nelson veio por “empréstimo” até 31 de dezembro, recebendo por dois meses de contrato a quantia de 20 mil cruzeiros, viajando com o “excelente pivô gaúcho o atacante Beresi” que pretendia fazer teste e ingressar no clube fronteiriço.
O primeiro treino dos novos jogadores encheu o estádio “os quais, segundo opinião geral dos que assistiram ao ensaio, muito agradaram”, comenta imprensa.  
Ainda neste propósito de revanche e sucesso, os irmãos Antônio e Martim Magalhães Rossel, mais Darcy Azambuja e Morgado Rosa, dirigentes índios, também almejavam o conceituado técnico Dom Henrique que, antes, fora treinador do Bagé. 
Era o seguinte o acerto de Nelson Adams: em caso de vitória do Guarany no confronto assinaria contrato até o final do ano percebendo o ordenado mensal de Cr$ 10.000,00; em caso de derrota, o que alijaria o alvirrubro do Torneio dos Vice-Campeões, seria dispensado recebendo apenas Cr$ 5.000,00, regressando logo para Porto Alegre.
O contrato de Mário Beresi foi concreto, pois o “foward argentino” perceberia Cr$ 5.000,00 mensais até o fim do ano. O futebolista, que antes atuara pelo Internacional, encerraria a carreira no Guarany, em 1950.
A partida teve lugar em 24 de outubro de 1949, um domingo cinzento que prometia chuva e com mais uma atração: o árbitro seria o juiz inglês Mister Barrick, contratado pela Federação Gaúcha para apitar jogos no Rio Grande do Sul.
O primeiro tempo é de entusiasmar. O Guarany domina o tradicional adversário e se avantaja por dois a zero. A torcida está empolgada. Pouco antes do fim do primeiro tempo, no meio do campo, Nelson Adams, após driblar um opositor, senta na bola. A massa aplaude, mas é suprema ofensa daqueles tempos um jogador abancar-se no esférico. Os atletas jalde-negros triscam os dentes e partem para o revide. Barrick intervém. Nelson é advertido. Vem o intervalo.

No segundo tempo, os abelhas parecem soldados cartagineses no embate. Sequiosos em curar a honra manchada dão os sangue e suor para reparar a exprobração, o pequeno Velho agiganta-se e os golos se sucedem: 3x2. No tento da vitória, na linha entre as traves, antes de impulsionar a pelota para dentro, Velho repete Nelson Adams e também esfrega os glúteos na redonda.
Se lembro, finda a partida o gramado se transforma em praia de Dunquerque, de lá e cá partem torcidas rivais; amigos íntimos se golpeiam; cadeiras voam. Objetos não identificados viram dardos. Para não fugir ao truísmo: verdadeira batalha campal.
Que passou à história como o Combate da Estrela D’Alva. Bagé, campeão citadino de 1949.
Escalações. Guarany: Magalhães, Nilton e Bataclã. Caboclo, Adams e Ataide. Miguel, Edegar, Beresi, Rubilar e Rui. Bagé: Darci. Ducos, Montagna, Osmar, Neco e Prinche. Jorge, Ceroni, Cross e Velho.
Segundo o Correio do Sul, “Adams saiu-se airosamente em sua estreia. Um elemento de grande classe e dono de uma técnica invejável”.
Adams jogou no Cruzeiro, São José, Nacional e Grêmio, em Porto Alegre; Flamengo, de Caxias do Sul; Bangu e Fluminense, do Rio; Portuguesa Santista e Santos, em São Paulo, depois de cirurgia no tendão de Aquiles. Quando foram para a Europa treinadores Oto Pedro Bumbel, Oto Glória e Martim Francisco, Nelson também lá desenvolveu sua trajetória em nova atividade, como treinador do Gijón. Supercampeão carioca pelo Vasco da Gama, em 1959, como auxiliar de Martim Francisco, o técnico que criou o 4.2.4 a partir do jogo de damas e xadrez, onde “quem domina o meio do campo vence a partida”. Nelson faleceu em Porto Alegre, em 2005.

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Fontes: Acervo documental de Nelson Adams, gentilmente cedido pelo historiador Nelson Adams Filho, residente em Torres; “Ex-jogadores da dupla Baguá”, obra inédita de José Higino Gonçalves. O cruzeiro foi moeda que desapareceu em fevereiro de 1967. Depois dele vieram o cruzeiro novo, cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real e real. O processo inflacionário converteria o salário de Nelson (Cr$ 10.000,00) em...R$ 20,75!

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