ANO: 24 | Nº: 6038

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
07/09/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

A breve trajetória de um professor particular

Um inusitado fato está para ser decidido pela justiça: pode a criança ou adolescente ser educado exclusivamente no âmbito de sua família, sem submeter-se à escola pública ou privada?
Lembre-se que a evolução da sociedade brasileira, e junto a autonomia da mulher, nasceu do surgimento das indústrias que transferiram as pessoas para a cidade, substituindo a educação ministrada pelas mães ou preceptoras pela obrigação estatal. A literatura cansou de episódios envolvendo professoras que iam para a área rural, acomodadas nas fazendas ou usinas de açúcar e café, cenários sempre de dramáticos romances.
Fui alfabetizado por dona Gilda, a santa filha de Noca Souza, essa a primeira odontóloga de Bagé, mulher imponente e sábia que seguiria na instrução preparando a “turma da zona” para o exame de admissão que permitiu acesso de todos, com galhardia, destaque e renhida disputa, às vagas no educandário salesiano.
No ginásio, além do português, matemática, geografia e história alinhavam-se outras disciplinas como o latim, francês, inglês, trabalhos manuais, religião, desenho, canto orfeônico e educação física com graus transcritos nas “cadernetas”, submissa à assinatura dos pais ou responsáveis, muitas vezes causa de reprimendas ou “castigos”, como a saída à rua; ou ida à matinê.
Não era estranho, pois, que muitas famílias contratassem “professores particulares” para seus filhos que, com outra pedagogia, auxiliavam nas “tarefas” diárias ou preparavam as “sabatinas” mensais.
Eram mestres talentosos e pacientes, muitos até estrangeiros, que iam aos lares, ou juntavam diversos alunos em suas casas, atendendo um e outro, num ambiente coletivo de boa socialização e preparo.
Dona Maninha Dupont era uma das mais requisitadas. Oriunda de linhagem de educadores e intelectuais não era fácil obter matrícula sob sua supervisão. Sua moradia, na avenida Sete, ao lado da Casa Krentel, onde ela assomava à janela nos entardeceres, foi local de formação de destacadas personalidades bajeenses.
Todavia, o grupo da zona se abrigou sob a orientação de dona Edith Dupont Baldi, esposa do italiano Pedro Baldi, que tinha um pequeno Fiat verde, e que, com os Ghisolfi, era dono de caieira perto do Prado. As aulas vespertinas aconteciam na residência vizinha ao Cinema Apolo, na Marechal Floriano, perto do Centro de Saúde e defronte aos Nocchi e aos Dias. Dona Edith, senhora bonita, era fluente em francês, tinha uma voz rouca pelo cigarro. Nas folgas, a gente batia bola no pequeno pátio lindeiro à garagem. Ito, Gabriel e Dimar, Djalma, Juca Abero, Dimar Brandão, Zé Nocchi e muitos, também serviam para que, Carlos Humberto, filho de dona Edith e mais tarde destacado funcionário de multinacional, também cumprisse os “deveres” que o colégio exigia.
A atividade, nesta forma, não desapareceu até hoje. Há anos recordo o invulgar apoio dado pela estimada e exemplar Terezinha Garrastazu que abriu os céus aritméticos para minha filha Letícia.
Assim, quando graduado em História Natural, preferindo Bagé à Bahia, em vista de convite para o local onde a Petrobrás começava a explorar os primeiros poços, seguindo tradição, passei a aceitar alunos particulares nas folgas dos horários do Estadual, freiras e padres, além do estágio militar no Mec.
E registrem os primeiros clientes (hoje é honra biográfica): Pedro Afonso e Luiz Augusto Menezes de Salles; José Antônio Martins Gomes. “Que trio”, sei que dirão! Agora, todos senhores respeitáveis, bem-sucedidos, mas outrora - e o farei com tino e alguma lhaneza - apenas jovens muito “ativos”, e (algo) rebeldes. Pedro Afonso, sereno, reservado, poucas palavras; Guti, inteligência elétrica, inquietude, loquaz; Zé Antônio, cerimonioso, organizado, atento. Não surpreende o êxito que tiveram em suas futuras profissões. Recordo, e com carinho, suas movimentadas presenças no pequeno escritório que possuía casa de meu irmão George, enfeitado com móveis modernosos e psicodélicos (amarelos?), novidade da época, aqui fabricados.
O professor particular tinha de ser enciclopédico, resolvia o problema da água no tanque que se esvaziava ora com uma ou tantas torneiras; raiz quadrada; balbuciava versões do inglês; descrevia o sistema nervoso, tudo além da monástica conduta de sorrir nos erros que os discípulos cometiam; e controlar-se nas algazarras que afetavam sua hierarquia e respeito.
Embora essa (memorável) experiência com arroubos juvenis, não desisti e passei a lecionar adultos preparando duas irmãs para concurso nos Correios, aí com sumário mais reduzido para esclarecer dúvidas e ensinar expedientes que superassem os obstáculos de um certame.
Minhas alunas, depois, foram a querida Rosamaria Sciortino, prima de minha namorada, e a doce Helena Paiva Gafrée (depois Burns), vizinha da solene casa da “vó” Coradina, na Rua Ismael Soares entre a Padaria Continental e a Praça da Estação, aí já os complicados problemas de álgebra e trigonometria, entremeados de mitoses, meioses e nervuras das dicotiledônias; e o cafezinho servido por Siá Maria. Com essa chave de ouro era preciso fechar o ciclo para o jovem catedrático, agora estudante da ciência jurídica.
E dar fim à (talvez) promissora vocação de professor particular.
Digo: e com muitas saudades.

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