ANO: 26 | Nº: 6495

Viviane Becker

viviminuano@hotmail.com
Colunista social do Jornal Minuano, Viviane Becker é experiente jornalista de geral e conhecida editora do caderno de variedades Ellas.
07/09/2018 Caderno Ellas

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você

Estranho seria se eu não me apaixonasse por você

 

Adriana Di Lorenzo
Psicoterapeuta psicanalítica e professora
adridilorenzo@uol.com.br

 

Quem pertence a minha geração vai entender!

Década de 80. O país passava por muitas transformações. Vivíamos o final da Ditadura Militar.

Diretas Já! Elegemos, mesmo que indiretamente, um presidente civil, Tancredo Neves. Porém, ele morreu sem nunca tomar posse.

Depois disso, veio o governo Sarney e, em 1989, o Brasil viveu um momento que consolidou o regime democrático. Votamos pela primeira vez para presidente. Eu resolvi exercer minha cidadania e também votei, como a maioria dos adolescentes, pois tínhamos conquistado o direito de ir às urnas a partir dos 16 anos.

Bons tempos aqueles! Conseguíamos, apesar de tão jovens, transitar entre política, economia, música e a chegada do McDonald´s em Porto Alegre. Tudo isso com a maior desenvoltura e usando All Star, é claro!

No rádio, nomes consagrados da MPB e da música romântica cederam espaço para uma galera que tinha muito a dizer.

Tive o privilégio de fazer parte dessa geração. Lembro o primeiro disco da Blitz. De vinil, óbvio! Fiquei horas e horas tentando entender por que as últimas faixas estavam riscadas. O que será que o Evandro Mesquita quis dizer e não deixaram? Como dizia a personagem Dona Milu (atriz Mirian Pires) da novela Tieta, Mistéeeeeerio!

Houve um surto de novos talentos. Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, Barão Vermelho, Blitz, Titãs, Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Camisa de Vênus, Lobão, Engenheiros do Hawaí, TNT e por aí vai.

Minha mãe ficava horrorizada quando me via cantando "Bichos Escrotos", dos Titãs. E enquanto mais horrorizada ela ficava, mais eu cantava. Sentia-me representada por aqueles caras. Finalmente, alguém falava a nossa língua.

No Rio de Janeiro, o Circo Voador era palco principal de toda essa geração. E, em Porto Alegre, o Gigantinho acolhia a maioria desses shows. Foram muitos e, graças à parceria do meu primo Zé e à segurança que a nossa capital oferecia na época, tínhamos o passe livre para viver tudo aquilo com a intensidade que a década de 80 merecia e que uma adolescência saudável merece.

O tempo passou. Cazuza e Renato Russo se foram. E minha adolescência também. Mas o mesmo poeta que emocionou a geração de 80 com o drama familiar de Marvin, o ex-Titãs, Nando Reis, esse ainda segue por aqui. E segue nos emocionando!

Com voz e violão, hoje à noite, Nando Reis vai, com certeza, nos lembrar que, apesar do mundo estar ao contrário e de não termos literalmente reparado, ainda estamos vivos. E ainda seguimos usando um All Star. Só que agora ele é azul.

Nando Reis consegue, com seus arranjos e com suas letras, revelar nossa condição humana. Adolescentes ou não, seguimos tendo dúvidas. Seguimos acertando, errando, amando e pedindo perdão.

Fernando Pessoa dizia que a ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são.

Hoje é dia de sentir. É dia de cantar. É dia de celebrar o amor. É dia de olhar para quem está ao nosso lado e de lembrar que, apesar da correria do dia a dia, estranho seria se eu não me apaixonasse por você!

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias do caderno

Outras edições

Carregando...