ANO: 24 | Nº: 6085

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
13/09/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Serena

Caso exista alguma pitada de verdade na ideia de que a “história é feita por aqueles que quebram as regras”, conforme a tagline do filme “Homens de honra” (2000), também é certo que fazer história nem sempre é algo positivo. Afinal, é inegável que uma sociedade bem-ordenada precisa de normas de conduta para conter os instintos humanos. Em parte, o saldo dos bons valores que uma geração transmite à outra está vinculado ao cumprimento daquilo que foi acordado entre os partícipes do jogo social.

Em 08/09/2018, Serena Williams, tenista de carreira consolidada e campeã de 23 Grand Slams, protagonizou uma complexa atitude na final do torneio US Open. Em um dado momento, a atleta recebeu uma advertência por estar recebendo instruções de seu treinador, atitude que é ilegal no tênis, independentemente de a atleta ter visto ou não a recomendação. Após isso, face a uma irritação diante de seus sucessivos erros, Williams destruiu sua raquete, o que caracteriza grave violação dos rígidos códigos de conduta daquele esporte, o que lhe trouxe como consequência uma perda na pontuação do jogo. A atleta, diante da decisão do prestigiado e experiente árbitro português Carlos Ramos, partiu literalmente para o ataque: discutiu de forma ríspida com o juiz, alegando que não trapaceou e que não recebeu instruções de seu técnico; também afirmou enfaticamente que Carlos Ramos deveria lhe pedir desculpas por ter lhe roubado um ponto e que era um mentiroso e ladrão; e completou dizendo que tem uma filha e a ensina a nunca trapacear, destacando que tal punição se deu pelo fato de ser uma mulher, pois, caso fosse homem, o tratamento teria sido diferente. Diante do pronunciamento acalorado da multicampeã, ergueu-se um debate sobre o sexismo no esporte.

Serena, que em entrevista para a revista Stellar Telegraph se declarou feminista, encarnou bem a marcha das minorias perseguidas. Trouxe à tona elementos que compõem as grandes alegações de nossa época: a imputação de responsabilidade a terceiros pelas irresponsabilidades e fracassos próprios. Ora, uma breve reflexão sobre esse tema pode colocar uma pá de cal. Seria Williams a única atleta, ao longo da carreira de árbitro de Carlos Ramos, a receber o tipo de tratamento dispensado? Não! Estrelas como Nadal e Djokovic já foram alvos da rigidez de Ramos. E se fosse um tenista do sexo masculino que se pronunciasse com a aspereza de Williams diante de uma árbitra mulher, qual seria a reação social? Se limitaria a algum tipo de punição dentro do esporte, ou invadiria outras quadras da vida do atleta?

Mas Serena tem um histórico curioso. Durante a final do US Open de 2011, ao receber da árbitra Eva Asderaki a informação de violação de conduta em razão de uma atitude inadequada, a tenista disse: “Eu realmente te desprezo [...] você é uma invejosa e é pouco atraente por dentro”. Há como avaliar serenamente a petulância de tais palavras dirigidas a outra mulher que tem a dura missão de fazer valer as regras do jogo?

Em 2011, tal momento de tensão pela busca de vitórias não chamou tanta atenção. Alegações de uma mulher negra contra uma mulher branca. Já em 2018, quando a agenda ideológica assim permite, afirmações duras proferidas por uma mulher contra um homem ganham holofotes. Há espaço para alguma indignação respeitosa que não seja seletiva?

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