ANO: 24 | Nº: 6080

Fernando Risch

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Escritor
14/09/2018 Fernando Risch (Opinião)

O modelo do debate eleitoral televisivo só prejudica a boa política


A troca de ideias dissidentes é essencial em qualquer democracia. Discordâncias são necessárias para que possamos ter pluralidade de vozes e pensamentos na sociedade, trazendo opositores a discutirem suas diferenças ideológicas. Na eleição, o debate se acirra, dos candidatos à militância, cada um com seu projeto, suas ideologias e pessoalidades. No atual cenário político brasileiro, de grave crise econômica e política, com problemas complexos para serem resolvidos no país, o modelo televisivo de debates entre candidatos, tão necessário para que o eleitor se decida, é um desserviço à boa política.

Trinta segundos, um minuto e um minuto e meio não são suficientes para alguém explicar a complexidade dos assuntos que urgem serem discutidos no Brasil, como a elaboração de um modelo de reforma previdenciária, por exemplo. Com esse tempo, o candidato com conteúdo tende a resumir suas ideias e propostas ao ponto de simplificá-las a frases quebradas ou de senso comum, assim se igualando ao candidato despreparado e sem conteúdo, cuja capacidade simplória de resumir assuntos complexos a meia dúzia de palavras é prática usual.

Assisti a todos os debates, com exceção de um. Em todos, saí com um sentimento de vazio, seja pelo despreparo de alguns, seja pelo excesso de concisão de ideias de outros. Senti desequilíbrio de ações de certos candidatos em alguns debates, assim como a propagação de certas ideias falsas e conspiratórias por outros. No fim, creio eu, a população tende a se decepcionar e manter o desgosto, com razão, pela política.

Prefiro assistir às sabatinas individuais de cada candidato, que falam abertamente e com mais tempo para cada resposta, por mais de uma hora em cada entrevista. Assim, consigo ver com abrangência as ideias e projetos de cada um. Quem simplificar, for evasivo ou for pouco profundo em uma sabatina, já sei que é um candidato vazio.

No fim, poucas pessoas têm paciência para assistir uma sabatina inteira, que dirá duas ou três do mesmo candidato, que dirá duas ou três de todos os candidatos (pelo menos os que se alinham no pensamento ideológico do eleitor); muitos, infelizmente, sequer têm acesso a tais entrevistas. E os debates televisionados em rede aberta, principalmente o último, da TV Globo, serão os propagadores das ideias dos postulantes à presidência e aqueles que conseguirem formular duas dúzias de frases de efeito levarão vantagem sobre aqueles que realmente têm respostas aos problemas complexos do país.

A verdade é que temos preguiça para a política. Cada debate de TV tem cerca de duas horas de duração. É pouco. Deveriam durar seis, sete horas, com cada candidato tendo tempo livre para se expressar sobre as complexidades do país, dentro dos mesmos moldes dos debates atuais. Mas isso nunca irá acontecer, e seguiremos simplificando nossos problemas e demonizando nossa política, colocando bons e ruins no mesmo pote e propagando o senso comum "farinha do mesmo saco". Precisamos evoluir politicamente.

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