ANO: 24 | Nº: 6104
15/09/2018 PAUTA ESPECIAL - Curso de Jornalismo

Setembro Amarelo: uma campanha a favor da vida

Foto: Reprodução JM

"Muitas vezes a família não nota os principais sintomas", diz médico Ivanclei Barp

por Aline de Oliveira, Letícia Fialho e Victória de Leon

Acadêmicas de Jornalismo da Urcamp

Existem vários tipos de campanhas. Algumas são muito faladas durante o ano todo, outras nem tanto. Isto porque alguns temas abordados ainda são considerados tabus para a sociedade. Não é tabu falar de câncer de mama, nem de câncer de próstata, mas ainda existe muito preconceito e receio à prevenção do suicídio. E é para isso que serve o setembro amarelo. Esta campanha tem como objetivo alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo, e como prevenir que isso não aconteça na sua casa, na sua roda de amigos ou com você.

De onde surgiu a iniciativa?
A história de como surgiu o setembro amarelo é bem curiosa e triste. Tudo começou com um simples jovem americano chamado Mike Emme, no ano de 1994. O menino de 17 anos era muito conhecido em sua comunidade pelo apelido de "Mike das Mustangs", pelo seu amor por esse tipo de carro. Mike era um adolescente alegre e tinha habilidades mecânicas, o que lhe permitia ajudar outras pessoas. Seu legado começou quando o garoto resgatou um Ford Mustang 1968 e dedicou muito à reforma do carro, reconstruiu e pintou de amarelo. Porém, ele sofria de um mal que estava escondido dentro dele e o mesmo não encontrou palavras para pedir ajuda. Ele acabou tirando a própria vida em um ato desesperado. Seu grito de socorro, infelizmente, veio tarde demais.
Famílias e amigos, impactados com o ocorrido, se uniram para distribuir palavras de ajuda pela comunidade em que viviam. Escreviam pequenos bilhetes com a mensagem: "Este cartão carrega a mensagem de que existem pessoas que se importam e podem ajudar! Se você está precisando e não sabe como pedir ajuda, entregue esse cartão para um terapeuta, médico, professor, amigo ou parente e diga: EU PRECISO DE AJUDA." Os bilhetes foram enviados e em apenas três semanas os pedidos de ajuda começaram a vir. Desde então, a fita amarela é reconhecida por criar consciência sobre a prevenção do suicídio.
Mike tirou a própria vida, assim como uma pessoa a cada quarenta segundos no mundo todo. Pessoas depressivas nunca querem acabar com a sua vida, elas querem acabar com o sofrimento delas, e, às vezes, para muitas, só existe essa solução. A campanha também tem o objetivo de mostrar que depressão é uma doença, sim, e não uma bobagem que não deve ser levada a sério. Por isso, fomos conversar com psicólogas e assistentes sociais, especialistas neste tipo de caso, para comentar um pouco mais sobre essa campanha.

A opinião dos especialistas
De acordo com a psicóloga Carolina Lemieszek, o objetivo direto da campanha é alertar a população do Brasil e do mundo sobre a realidade do suicídio e mostrar as formas de prevenção. "Aqui, no Brasil, começou em 2015, em Brasília, junto com o CVV (Centro de Valorização da Vida), com o Conselho Federal de Medicina e com a Associação Brasileira de Psiquiatria", conta. O CVV realiza um atendimento voluntário de apoio emocional e prevenção do suicídio, sob total sigilo, por telefone, e-mail e chat 24 horas, todos os dias.
Segundo a profissional, é sempre importante, para quem tem esses pensamentos suicidas, conversar. O diálogo é a parte fundamental antes, durante e após o tratamento. Familiares, amigos ou alguém de confiança estará disposto a ouvir, independentemente de qual for o assunto. "O suicídio é, sim, um problema de saúde pública no Brasil. Vocês sabiam que, no mundo todo, uma pessoa se mata a cada 40 segundos? No Brasil, é a quarta causa de morte entre os jovens. E 90% dos suicídios poderiam ser evitados se tivessem procurado ajuda psicológica." comenta Carolina.
Existem alguns fatores de risco para pessoas com tendências suicidas, como histórico de pessoas na família que já tentaram tirar a própria vida, falta de vínculo pessoal, familiar, social, desemprego e divórcio. Esses são alguns dos motivos para alguém ter pensamentos ruins, posteriormente levando-a morte. "A gente não pode culpar, banalizar e criticar, não podemos achar que a pessoa que tentou o suicídio é fraca, pelo contrário", ressalta.
Algumas perguntas chaves são essenciais quando o paciente chega até o doutor, seja no pronto-socorro, emergência do hospital ou postos de saúde. Isso porque se a tentativa de suicídio não tiver sido ainda concretizada, o paciente pode tentar fugir de perguntas que o levem a confessar o que está planejando fazer. De acordo com o doutor Ivanclei Barp, médico geral da Unidade Básica de Saúde (UBS) da Arvorezinha, os alertas são diversos. "Muitas vezes a família não nota os principais sintomas, que é o isolamento, a tristeza e a desmotivação, não se alimentar bem, descuido com a própria higiene, porque ele não liga mais para nada", destaca.
A pessoa que busca o suicídio quer acabar com a dor que está sentindo e não com a sua vida. "Quando o paciente vem para cá, ele tem que se sentir seguro. Ele veio para contar os problemas dele e os seus relatos não irão sair desta sala." explica Barp. Neste posto, é mais corriqueiro que os depressivos busquem ajuda do que os familiares.
O abandono, como já dito anteriormente, foi outro assunto abordado pelo médico. Segundo ele, a pessoa não precisa estar abandonada, de fato. O sentimento de abandono persiste nela, seja pela esposa ou marido, círculo de amigos, familiares ou colegas de trabalho. Os pacientes idosos, por sua vez, sentem que estão ocupando um tempo desnecessário na vida dos seus entes queridos. Sim, a depressão e o suicídio atacam todas as idades, e por isso é tão perigosa. "Nós trabalhamos a questão do propósito. Porque eles dizem 'ah eu durmo e acordo', então vamos dar um propósito a eles. Como, por exemplo, vir uma vez por semana no posto, que tem um grupo de ginástica. E isso acaba mudando a perspectiva das pessoas", afirma.
"Toda a nossa abordagem é de promoção de saúde, de vida, de qualidade dos laços afetivos, laços familiares e com a comunidade. Então, o nosso enfoque na prevenção do suicídio é exatamente isso, e logicamente que também é em relação às famílias aprenderem um pouco mais sobre o tema e conhecerem sobre os sinais de riscos na adolescência, que é um momento em que muitos conflitos e transtornos vem à tona", esclarece a psicóloga Dilce Helena Aguzzi, atuante no CAPS I. "A grande maioria não tinha noção da gravidade. Por isso é um dos nossos papéis trabalhar para que a família perceba que um gesto suicida ou uma atitude de autoflagelo ou de automutilação nunca começou naquele momento, é sempre uma história que tem um antecedente bem lá atrás", completa.

Mitos e verdades
Temos também alguns mitos envolvendo o suicídio. Muitos dizem que a pessoa que tenta se machucar ou mesmo acabar com sua vida quer realmente parar de existir, e isto não é verdade. Uma pessoa suicida, depressiva, só quer acabar com a sua própria dor. Também vale lembrar que se, sem razão aparente, a pessoa que está sob cuidados mostrar sinais de bom humor súbitos, o cuidado deve ser redobrado, pois o plano de dar um fim à própria vida pode estar pronto e a felicidade dela venha disso.
Os fatores que levam a pessoa a cometer o suicídio são vários, e devemos ficar atentos a cada um deles. Perder algum ente querido, namorado ou amigo, sendo um acontecimento recente ou passado, pode afetar o psicológico das pessoas. Algumas doenças também pode acarretar pensamentos de morte, como ansiedade intensa, ataques de pânico e depressão (de todos os níveis). O risco praticamente dobra quando a pessoa tem dois tipos de distúrbios mentais, e triplica quando há mais de três. Isso porque, junto com os pensamentos e perturbações, vem a vontade de acabar com tudo.
É importante destacar que para podermos conversar com uma pessoa que está nessa situação, devemos prevenir algumas frases, que não só empurraram a pessoa ainda mais para baixo, como não ajudam em nada para o psicológico dela. Palavras que no seu pensamento podem parecer muito úteis, na verdade não são, como, por exemplo: ‘Eu já me senti sobrecarregado e sobrevivi’; ‘Tudo pode piorar’; e ‘Você deveria se sentir com sorte por tudo que tem’. “Essa relação de troca de assuntos deve ser bem cuidadosa e calma, por isso o mais indicado é não alterar a voz, manter contato visual e deixar a pessoa falar o quanto quiser. Este é um dos primeiros passos”, alerta a profissional. "A essência desse setembro amarelo, que eu acho importante salientar, é que dificilmente uma pessoa quer morrer. O suicida não deseja parar de viver, ele deseja parar de sofrer. Tem que se entender isso. Essa é a essência da campanha", finaliza a psicóloga Dilce Helena.

É possível buscar ajuda
Não deixe que isso aconteça com seus familiares, amigos, ou até mesmo com você. Se estiver sentindo qualquer coisa que ameace a sua vida, ligue para o 141, número de atendimento do CVV no Rio Grande do Sul, ou para o 188, para o resto do Brasil, 24 horas por dia.

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