ANO: 24 | Nº: 6104

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
15/09/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Uma questão de preferência

Nestes tempos de redes sociais, de amplificação das relações entre as pessoas em ambientes virtuais, muitos de nós ainda estão aprendendo a lidar com tudo isso que, ao mesmo tempo em que invade nossa rotina diária, proporciona inúmeras experiências novas.
Todavia, nem todas estas experiências são positivas. Como tudo, as redes sociais têm aspectos positivos e aspectos negativos e ainda que, por vezes, os aspectos negativos pareçam predominar, esta nova tecnologia de comunicação se impôs de forma tal no nosso cotidiano que agora parece tarde demais para que possamos voltar atrás e nos livrarmos dela. Estamos vivenciando uma grande revolução na forma de interagirmos com os outros. Não creio que esta transformação já tenha se concluído, pois, como afirmei inicialmente, ainda estamos aprendendo a lidar com tudo isso.
E nesse processo de aprendizagem se destaca a possibilidade de descobrir aspectos das personalidades alheias que a eventualidade e superficialidade das relações sociais jamais seriam capazes de revelar. Comportamentos, opiniões e reações surpreendentes de pessoas conhecidas e que nunca imaginamos que pudessem pensar ou agir daquele jeito. Alguns casos fazem lembrar até daquele desenho animado do Pateta que retratava a transformação de um cidadão comum e calmo que, quando entrava no seu automóvel e começava a dirigir no trânsito, se transformava numa pessoa agressiva e impaciente, quase como se tivesse uma dupla personalidade. Nas redes sociais isso é relativamente comum! Pessoas simpáticas e amáveis no trato pessoal que ficam agressivas e intragáveis no trato virtual.
O grande problema da incompatibilidade de gênios proporcionada por esse convívio virtual é que ela pode provocar efeitos no convívio real, melindrando ou estremecendo amizades antigas em função de divergências reveladas e amplificadas pelas redes sociais. Neste momento, até em homenagem e consideração aos velhos tempos de admiração e harmonia mútuas, alguma medida precisa ser tomada e ainda que muitos insistam que conviver com a divergência seja um exercício social necessário e saudável, a tendência é que a gente se afaste. O mais paradoxal, porém, é que este afastamento virtual possa ocorrer exatamente para preservar a amizade real, ou seja, se acredita que a intimidade proporcionada pelo ambiente virtual pode ser nociva àquela relação tão harmoniosa no mundo real.
Deixar de seguir, desfazer a amizade ou simplesmente evitar retrucar são as medidas tomadas no mundo virtual e que não diferem muito do que ocorre no mundo real onde a gente evita se aproximar de pessoas que divergimos ou que nos incomodem. A tendência é que a gente se relacione com pessoas que tem opiniões e preferências similares às nossas, mais ou menos como ocorre em reuniões de casais onde, naturalmente, homens costumam ficar em grupos distintos das mulheres. De um lado o Clube da Luluzinha, onde meninos não entram e, de outro, o Clube do Bolinha, onde meninas não entram. Não há nada de anormal nisso, pois, se trata de um movimento natural que apenas se replica nos ambientes virtuais.
Que assim seja então, pois como diz aquela frase que circula nas redes sociais, "não que eu seja mal-educado, antissocial, egocêntrico ou algo do gênero. É que eu simplesmente quero me afastar das pessoas que não me fazem bem. Não é uma questão de arrogância, mas de preferência."

 

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