ANO: 25 | Nº: 6404

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
20/09/2018 João L. Roschildt (Opinião)

A monomania da democracia

A crença desembestada de que o ideal democrático é algo digno de louvores, criou uma vacuidade no espaço destinado à crítica racional. A grande e gorda vaca sagrada de nome democracia conseguiu, intocável em sua essência, deixar um legado literalmente bovino.

No vasto espaço do debate público, há uma crença infundada de que números que representam maiorias significam a verdade. Trocando em miúdos: se existe algum tipo de respaldo popular, esse critério seria autossuficiente para que algo fosse tomado como correto, justo, adequado e verdadeiro.

E esse pedestal democrático sempre encontra guarida em pesquisas de opinião. Seus usos também são bem conhecidos. Por exemplo, em Bagé, de acordo com pesquisa realizada em agosto deste ano, o governo do prefeito Divaldo Lara foi aprovado por mais de 74% dos entrevistados. O ex-presidente Lula encerrou seu mandato em 2010 com índices de aprovação e popularidade próximos de recordes internacionais: algo em torno de 87%. Por outro lado, somente 26% dos brasileiros julgaram que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso terminou seu mandato com desempenho bom ou ótimo. Já em terras distantes, o também ex-presidente Barack Obama, ídolo do progressismo mundial, finalizou sua participação no governo norte-americano com 60% de aprovação. Bill Clinton (66%) e Ronald Reagan (64%) obtiveram resultados melhores. Mesmo diante de toda repugnância e hostilidade por parte da grande mídia, o governo de Donald Trump, segundo pesquisa do Wall Street Journal/NBC News, é apreciado por 45% da população dos EUA.

Retornando a terras mais calientes, o ex-ditador (digo, comandante em chefe... digo, presidente), Hugo Chávez, em 2012, atingiu a marca de 74% de veneração venezuelana. Na época, se tal pesquisa fosse realizada entre esquerdistas brasileiros, seria muito duvidosa se não obtivesse 100% de aprovação. Já seu “boneco em chefe”, Nicolás Maduro, hoje tem índices de rejeição acima dos 70%. Por falar em figuras públicas feitas de baluarte por decisões unilaterais, no final de 2015, a então presidente Dilma Rousseff tinha 70% de reprovação. Também é adequado recordar que uma pesquisa do Ibope, em julho de 1971, atestou que o governo de Emílio Garrastazu Médici tinha 82% de aquiescência da população do Brasil.

Ainda sobre a verificação da opinião pública, pululam dados sobre as mais variadas situações. Da legalização da maconha à descriminalização do aborto; da redução de impostos à implementação de cotas; do casamento gay à discussão de gênero nas escolas; para qualquer polêmica, uma pesquisa. Como se o respaldo popular fosse critério de correção sobre as medidas a serem tomadas. O fato é que a busca pela verdade não passa pelos desejos e instintos de uma maioria. A razão não é democrática. A justiça não é democrática. E a verdade, para indivíduos razoáveis, não tem nada a ver com democracia.

Sócrates e Aristóteles tinham ressalvas com a democracia. Sabiam que a manutenção do poder pela paixão popular poderia nos conduzir para a demagogia. Os desejos da maioria nos brindam da força coletiva, não necessariamente do império da razão. A volatilidade do canto democrático não garante acerto algum. Como diria Nélson Rodrigues, “a maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade”.

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