ANO: 26 | Nº: 6526
20/09/2018 Cidade

Fundado no Dia do Gaúcho, Museu Dom Diogo de Souza preserva relíquias dos farrapos

Foto: Sidimar Rostan/Especial JM

Bandeira é exposta apenas em situações especiais, a exemplo da Semana Farroupilha
Bandeira é exposta apenas em situações especiais, a exemplo da Semana Farroupilha
Exposta ao público apenas em condições especiais, a bandeira desbotada, que pertenceu à família Silva Tavares, representa bem mais do que um simples exemplar do símbolo de Estado. Considerada única, em suas condições de conservação, a peça de tecido, composta por um quadrilátero vermelho, entre dois triângulos retângulos nas cores verde e amarelo, é um dos principais artefatos preservados pelo Museu Dom Diogo de Souza.
O pavilhão farroupilha foi doado em janeiro de 1961, por Branca Moglia Tavares. De acordo com as informações registradas no livro de tombo do museu, uma espécie de inventário dos itens históricos conservados pela instituição, pesquisadores presumem que a peça tenha sido apreendida em algum dos encontros entre imperiais e farrapos, possivelmente retratando, neste sentido, uma vitória imperial sobre os farroupilhas.
Em trabalho de dissertação apresentado à Universidade Estadual Paulista, Ricardo Seyssel destaca que ‘a essência da bandeira é ser símbolo de um grupo étnico-cultural ou, preferencialmente, símbolo pátrio’. Entre os militares, bandeiras também podem ser consideradas troféus de guerra. A ficha referente ao artefato farroupilha que integrava o arquivo de João da Silva Tavares, o Visconde de Cerro Alegre, entretanto, não especifica os motivos que o levaram a guardar um ícone do inimigo – tendo em vista que ele tomou partido dos imperiais no conflito.


Símbolo oficial
Historiadores divergem sobre a autoria da bandeira farroupilha. Enquanto alguns pesquisadores apontam Bernardo Pires (militar e político) como idealizador, outros atribuem a autoria a José Mariano de Mattos (que foi vice-presidente da República Rio-grandense). Historicamente, de acordo com o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), existe o consenso de que a insígnia foi apresentada em Piratini, no dia 6 de novembro de 1836, e adotada, oficialmente, seis dias depois.
A bandeira só foi formalizada como símbolo do Rio Grande do Sul nos primeiros anos da República, por meio da Constituição Estadual promulgada em 14 de julho de 1891. Durante o Estado Novo, entre 1937 e 1946, Getúlio Vargas suspendeu o uso dos símbolos estaduais e municipais, incluindo bandeiras e brasões. O restabelecimento viria somente em janeiro de 1966, por meio de nova lei estadual.


História ao alcance
O Museu Dom Diogo de Souza mantém, em exposição permanente, outros objetos ligados aos farroupilhas. Na sala dedicada às revoluções, repousam artigos encontrados no local onde foi travada a batalha do Seival, nos campos dos Menezes, hoje localizados no município de Candiota. A lista de objetos utilizados durante o conflito que resultou na proclamação da República Rio-grandense, em 11 de setembro de 1836, por Antônio de Sousa Netto, inclui uma espora (utensílio utilizado para pressionar o cavalo a se locomover) e um freio (também utilizado em equinos).
Os dois objetos doados pela família Brizolara da Rosa, fazem companhia a uma baioneta, encontrada no mesmo local, que pertenceu a Gelmi Dias da Silva e foi doada ao acervo por Tarcísio Antônio da Costa Taborda. Além da bandeira, Branca Moglia Tavares doou uma faixa de tecido verde, com as inscrições ‘Briosos Filhos dos Heroes de 1835’, oferecida, originalmente, às lideranças do conflito, após a assinatura da paz, em uma missa realizada em Bagé, em março de 1845. O museu preserva, ainda, um poncho que pertenceu ao capitão José Crispiniano de Contreiras e Silva, doado pela família de Félix Contreiras Rodrigues.


Fonte de conhecimento
O Dia do Gaúcho tem um simbolismo especial para o Museu Dom Diogo de Souza, que possui exposições diversificadas, formadas a partir de doações. Fundado em 20 de setembro de 1956, originalmente em duas salas da Vila Vicentina, o museu foi articulado após a ‘Exposição Histórica e Cultural de Bagé’, realizada em 1955, para assinalar o bicentenário do nascimento de Dom Diogo de Souza.
Os acervos, formados com o objetivo de preservar a história e a cultura da região, reúnem jornais (na Hemeroteca Isidoro Paulo de Oliveira), objetos, imagens sacras, itens de vestuário, coleção de numismática (cédulas e moedas), documentos, biblioteca de autores bajeenses, aproximadamente cem mil fotos (na fototeca Túlio Lopes), e a biblioteca de Tarcísio Taborda – que organizou o museu, com o apoio de Eurico Sallis, Féĺix Contreiras Rodrigues e Túlio Lopes.
A instituição foi transferida para o prédio da Sociedade Portuguesa de Beneficência em 1975 e hoje está sob a gestão dos museus mantidos pela Fundação Attila Taborda (Fat/Urcamp), que é feita pelas professoras Carmem Barros (Lula) e Maria Luíza Pêgas (Lala). Elas explicam que todos os acervos, assumidos através de um convênio, assinado em 1969, possuem manutenção, higienização e conservação diferenciada, de acordo com suas classificações. “O museu, após 62 anos, amplia a discussão sobre a função dos museus na atualidade, que assumem papéis fundamentais da guarda do patrimônio museológico e das memórias, atuando no fortalecimento da cidadania, identidade e valorização da cultura”, avaliam.
Como fonte para o desenvolvimento da educação, o Museu Dom Diogo de Souza também contribui para a elaboração de trabalhos científicos e acadêmicos de diferentes áreas, inclusive com a coleção referente à Revolução Farroupilha, que remontam ao período entre 1835 e 1845. “As pesquisas são solicitadas o ano inteiro, pois possuímos um acervo documental significativo”, pontua Lala.

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