ANO: 25 | Nº: 6283

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
21/09/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

À sombra dos ciprestes

A morte é conceito complexo que abrange aspectos biológicos também envolvendo outros âmbitos como os familiares, jurídicos, sentimentais, históricos e até sanitários. Nos últimos dois, importa a referência sobre as razões de sepultamento e situação topográfica dos cemitérios.
Em séculos anteriores, em vista da influência religiosa e a preocupação a alma do finado, toda tutela era feita pela Igreja; a doença era uma dádiva; os funerais eram acontecimentos sociais; e em troca de comida muitas pessoas choravam nos velórios e acompanhavam o féretro. Por tais razões, o enterramento dava-se nos templos, fato que gerou revolta na Bahia, em 1836, quando se quis deslocar a cerimônia para cemitérios de iniciativa privada.
É que os antigos, tementes da proximidade dos mortos e deles querendo distância aceitavam que fossem inumados nas igrejas ou em suas cercanias para não os perturbar, razão depois da edificação de cemitérios fora dos “muros urbanos”, em geral à beira das estradas, que logo se avizinhando dos bairros e centros populacionais ante o crescimento demográfico, encerrando a atuação eclesiástica.
O enterro, segundo Arlès, atendia possíveis desejos do moribundo de beneficiar-se da proteção de um santo padroeiro, e para que fosse recordado nas preces dos fiéis, acreditando alguns teólogos que por estarem os mortos sepultados perto do altar e dos sacerdotes obteriam maior proveito celeste em vista da eficácia das rezas. Mais tarde, por razões litúrgicas, os terrenos dos velhos cemitérios, perto das igrejas, transmudaram-se em capelas e os falecidos remetidos aos cemitérios exteriores, afrouxando-se os laços entre a religião e as necrópoles, espaços que se “laicizaram” com ingerência do poder temporal que aceitava tanto enterros de excomungados como de pecadores públicos aos quais a igreja recusava exéquias. Em 1763, em Paris, as populações próximas dos cemitérios começaram a se queixar de danos às pessoas pela insalubridade e a morte de crianças dizimadas pela abertura de algum jazigo; ou coveiros fulminados ao estripar um cadáver (= “cara data vermis”, ou seja, carne dada aos vermes).
Fatores relevantes foram, depois, a epidemia de cólera, a influência do positivismo comtiano, e as descobertas de Koch e Pasteur sobre os microrganismos contagiosos obrigando a eliminação do mal, crescendo a medicina social, a teoria do “higienismo”, o que fortaleceu hospitais de isolamento e a autonomia privada dos enfermos. E a ideia da “morte higienicamente correta”, cabendo ao estado a remoção dos corpos dos indigentes e infectados. O temor da contaminação erigiu outros atores como a Medicina e o Poder Público afetando os enterros realizados nas cercanias das igrejas em vista de severas regras higienistas como a circulação do ar. Os cemitérios se deslocaram para as lonjuras para não prejudicar os lençóis freáticos existentes, o que desestimulava acompanhar o féretro e fazer visitas. Os funerais, antes até festivos, ficam distantes, havendo normas francesas que, sob pena de excomunhão, proibiam as danças nas igrejas e cemitérios, bem como a presença de mágicos, mímicos, mascarados, músicos e charlatães, tendas de mercadores e de oferta por escribas profissionais. É que, quando os cemitérios ocuparam lugares próximos às igrejas, deixando de ser públicos, viraram asilos e refúgios de pessoas que lá construíam casas e formavam subúrbios estimulados pelos privilégios fiscais.
A terceira fase em que a “individualidade e apropriação do cotidiano da morte” sai da religião e da atividade oficial e passa para o colo das ciências biológicas, o médico substitui o padre, ditando a “vida, a morte e a ressurreição” em vista do desenvolvimento científico e de procedimentos como a reanimação cardiorrespiratória, distinção entre coma profunda e morte cerebral, remoção de órgãos para transplantes, princípios bioéticos etc.
No Brasil, em vista da eclosão dos antibióticos e melhores regras de higiene, a fase do “sanitarismo” desaparece em 1930, quando a morte sai do meio familiar para alojar-se, definitivamente, nos braços da medicina
Em 1877, aqui em Bagé, quando o cemitério era religioso, o padeiro José Brunschvig, “súdito francês israelita”, por ser judeu foi inumado “extramuros”, ou seja, atrás das paredes da capela. Com os anos a cidade cresce e os limites caminham. Hoje, o sepulcro do rico comerciante está no meio do campo-santo.   
Depois que Vergílio apresentou o Inferno a Dante, e esse reclama dos choros e murmúrios que não os deixavam conversar, o poeta responde que esses espíritos “não têm esperança de morte ou salvação, o mundo deles não se lembra, nem a justiça. Deixa-os. Apenas olha”.
E manda o florentino passar.

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