ANO: 25 | Nº: 6309

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
25/09/2018 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

A era da falta de paciência

Realmente não sei se a humanidade já viveu um momento de tamanha falta de paciência como o que presenciamos atualmente. Sei que faltam muitas outras coisas também, como, por exemplo, o bom senso, noções básicas de boa educação, ética e tolerância com o que é diferente, mas se houvesse uma maior capacidade de exercitar paciência todas essas outras virtudes teriam o mínimo de chance para desabrochar. O que dizer a respeito da prática de “limpar” as redes sociais excluindo dali todas as pessoas que publicam coisas com as quais não concordamos? Seria uma forma de acreditar num mundo que só tem o que eu quero, o que eu concordo, um mundo de iguais? Assustador...
Sem paciência não há aprendizagem significativa, não existe possibilidade das descobertas que surgem a partir do processo continuo de tentativa e erro, não seria possível descobrir um equívoco ou compreender um ponto de vista diferente. Sem paciência não conseguimos descobrir as pérolas que só aparecem depois de se suportar a chatice, ou a lentidão inicial, seja num bom livro, filme, dia comum, ou até mesmo conversa com alguém, seja esse alguém próximo ou não. É preciso ter paciência para apreciar as descobertas da vida. Ser paciente é possuir uma forma de sabedoria intuitiva na qual se supõe que o mundo não gira em torno de nós, nem tampouco a vida e seu fluxo de acontecimentos seguem nossa vontade ou ritmo pessoal.  
Para aqueles que não tiveram a sorte de nascer com esta virtude inata existe a educação. Sim, a forma como a família permite que todos os desejos de um filho sejam concedidos acreditando que assim o farão feliz na verdade só promove a falta de tolerância à frustração, a dificuldade em esperar. O contínuo investimento em manter as crianças ocupadas o tempo todo desde bebês em incessantes atividades para que não fiquem frustradas, acaba por forjar alguém que o tédio desespera, a contrariedade é um insulto e algo que o irrita é considerado uma afronta pessoal. Ou seja, a família precisa voltar a acreditar que educar é ajudar as crianças a compreender que são pessoas importantes sim, mas não tão importantes assim!
A falta de paciência é uma faceta da nossa velha e conhecida ansiedade, tentando antecipar tudo, buscando evitar a frustração e o desprazer a qualquer preço, porém o resultado é exatamente o oposto, desconforto generalizado e sensação de insatisfação frequente sem que se identifique a causa. A crença exagerada em uma vida sem frustração leva à intolerância, ansiedade, dificuldade em lidar com as dificuldades normais impostas pela vida e, principalmente, gera pessoas incapazes de conviver em sociedade e toda gama de variedades, surpresas e contrariedades que isso pode significar.


OLHO
“O que dizer a respeito da prática
 de ‘limpar’ as redes sociais...”

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