ANO: 25 | Nº: 6378

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
27/09/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Escola não é para “vacilão”

Nos últimos dias, houve enorme repercussão em torno das agressões e humilhações sofridas pelo professor de língua portuguesa Thiago dos Santos Conceição. O fato? De acordo com vídeo divulgado em redes sociais, registrado por um "aluno" do Centro Integrado de Escola Pública (Ciep) Mestre Marçal, localizado no município de Rio das Ostras, no interior do Rio de Janeiro, outros "estudantes" perpetraram diversas ações que ultrajam a espécie humana.

Em um ponto da filmagem, é possível ver um "aluno" afirmando que o professor nunca mais vai dar aula, após ser indagado se iria matá-lo. Em outro trecho, Thiago tentou manter a porta da sala de aula (ou seria um protótipo prisional?) fechada, mas foi duramente afrontado e empurrado pelos "estudantes". Nas imagens, também se vê que um dos adolescentes responde às questões da prova aplicada pelo professor escrevendo "tô nem aí" e "foda-se". Logo em seguida, um gesto obsceno é apontado em direção a Thiago. Em perfeita harmonia com tudo isso, um "aluno" comeu uma parte da folha da avaliação, outro quebrou uma parte do quadro, e um deles amassou a prova na frente do professor. Por fim, um desses "discentes", ao constatar que Thiago estava de costas, arremessou um objeto com o claro intuito de atingi-lo.

Após o ocorrido, o "aluno" que atirou um objeto na direção do professor gravou um vídeo pedindo desculpas. Não faltaram "pô mano", "valeu?", "tá ligado?", "bagulho", "tipo assim, mano". Em um momento, enfatizou que quando raciocinou (seria uma piada?) sobre o que ele realizou, descobriu que houve um erro na sua atitude. Da mesma forma, aproveitou para dizer que seu ato era "coisa de marginal, de vacilão". Ainda bem que ele reconhece a estirpe a que pertence; afinal, com um vocabulário digno de gênero musicais que reforçam o modo de vida "gangsta", em que o ilícito é compreendido como moralmente valioso, não poderia se esperar algo diferente.

Mas o problema é ainda mais profundo. Em entrevista para o Bom Dia RJ, o professor Thiago declarou que "esses alunos também estão pedindo ajuda". Ao programa Fantástico, em encontro com um desses "estudantes", o professor declarou que interpreta "aquela violência de diversas formas, como um pedido de socorro" perante as negligências da família, do Estado e das autoridades.

Claro! Agredir e ultrajar alguém significa pedido de auxílio! Com a devida ironia, em nossa sociedade de desajustados, o que mais existem são pedidos de ajuda. No entanto, Thiago não é o grande culpado por apresentar essa variação da síndrome de Estocolmo. Ele é só um reflexo da completa inversão de valores estabelecida por meio de teorias que justificam crimes por fatores externos. É Rousseau na veia: o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. Ou seja, a responsabilidade da ação hedionda recai sobre a vítima ou sobre o sistema, nunca sobre o indivíduo. Thiago, incrivelmente, continua acreditando no poder da educação para quem não quer ser educado.

Definitivamente, a escola não deve(ria) ser lugar de "vacilões". É uma simples constatação frente à deturpação do sentido de ensino e aprendizagem. Existem outros locais para pessoas que vacilam com as outras. Em épocas absolutamente doentias, aquilo que é ululante para a razão nunca ulula no volume adequado. Vacilar na percepção da realidade tem um alto custo social.

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