ANO: 26 | Nº: 6542

Rochele Barbosa

rochelebarbosa@gmail.com
Jornalista formada pela Universidade da Região da Campanha. Responsável pela produção e reportagem do caderno de Saúde do Jornal MINUANO
01/10/2018 Caderno Minuano Saúde

Doação de órgãos: “Quando a morte não é em vão”

Foto: Tiago Rolim de Moura

Página 2 ou 3 - Médico e receptor Antônio David Salomão
Página 2 ou 3 - Médico e receptor Antônio David Salomão

Enquanto um médico exerce o que pode ser a parte mais difícil de sua profissão, notificar familiares de sua perda, um fio de esperança é tecido para outra família. Quando existe a possibilidade e permissão dos familiares, a equipe atua rapidamente para que órgãos e tecidos de um paciente possam virar o marco de uma nova vida para outro. É em busca de maior conscientização e aceitação dos familiares que o Brasil comemorou, em 27 de setembro, o Dia Nacional da Doação de Órgão.
Embora o processo para a doação no Brasil tenha apresentado evoluções importantes, como sua desburocratização, o último levantamento da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), via Registro Brasileiro de Transplante (RBT), aponta que a quantidade de procedimentos apresentou números bem próximos no primeiro semestre de 2018 quando comparado ao mesmo período de 2017, um crescimento de apenas 1,7%. Na comparação com anos anteriores (2017/2016), o aumento foi de 3,5%, números que já eram insuficientes para reduzir a fila de pacientes na espera. Mais de 15 mil pessoas passaram a aguardar por algum tipo de transplante no primeiro semestre desse ano, o que culminou em uma lista de espera com 32 mil pessoas ao final de junho de 2018.
Nesta edição, você irá conhecer a história de um receptor de órgãos que, há seis anos, convive com seu novo fígado, graças a uma doação de órgãos e de uma família que doou e fez a vida dele continuar. O médico Antônio David Salomão, de 55 anos já vive com o novo órgão desde 2012.


Página 2 e 3 – Uma vida normal e cheia de gratidão
O médico patologista Antônio David Salomão, 55 anos, natural de Bagé, passou por uma situação inusitada em sua vida. Durante um procedimento cirúrgico, quando mais jovem, contraiu o vírus da Hepatite C, de um paciente contaminado. Após alguns anos, a doença voltou a se manifestar, quando foi diagnosticada a hepatite crônica ativa. Em 1991, iniciou o primeiro esquema terapêutico a base de interferon. Sem resposta ao medicamento, fez a segunda tentativa terapêutica em 2004, com interferon peguilado e ribavirina durante 48 semanas. Como não conseguiu eliminar o vírus de seu organismo, a hepatite continuou lesando seu fígado. Em 2012, já com cirrose hepática, apresentou um quadro agudo de descompensação hepática, entrando em pré-coma. Esteve internado na Santa Casa de Bagé durante alguns dias antes de ser transferido para Porto Alegre, devido à gravidade da doença. A partir daquele momento, como não havia mais recurso medicamentoso, entrou para a fila dos pacientes aguardando transplante de fígado. Pai de três filhos, com 22, 26 e 30 anos, casado com a empresária Rosângela Salomão, o médico destaca que 'passou momentos difíceis com a doença'. “Fiquei muito mal e, em 2012, tive uma encefalopatia, entrando em pré-coma, devido à falência do meu fígado. Naquela ocasião, apesar dos distúrbios neurológicos, percebi que já tinha como certa a morte”, recorda.
A esposa enfatiza que foram momentos muito difíceis. “A gente sofreu muito. Percebi que iria perder meu esposo e pai dos meus filhos. Tivemos que ter muita força e, ao mesmo tempo, a vida continuava. Havia o Laboratório (Centro de Patologia) para tocar e era muito complicado, mas tivemos o apoio dos colegas e ex-professores do meu marido”, disse, citando como exemplo o doutor Eduardo Bicca, de Pelotas, doutor Cláudio Zettler, doutor Roque Furian, todos experientes médicos patologistas do Laboratório de Patologia da Santa Casa de Porto Alegre. "Eu tinha confiança, esperança e tínhamos Deus e orações de amigos. A energia positiva em torno da nossa família foi muito importante. Hoje somos gratos a todos que rezaram, oraram e emanaram boas energias”, ressaltou Rosângela.
Quando os médicos de Salomão deram a notícia de que a doença estava muito avançada e que restava apenas o transplante, a família se uniu. "Quando entrei na lista de espera para um órgão, não imaginava que iria conseguir. Tive muita sorte”, completou. Em maio de 2012, uma chance surgiu e uma ligação da central de transplantes devolveu a esperança, mesmo que com ressalvas do paciente. “Eu não queria ir. Me ligaram da Central de Transplantes perto da meia-noite e disseram assim: pense, você tem cinco minutos se vai vir ou não, porque se não quiser, vou passar o próximo da lista. Conversei com a minha mulher e decidimos ir imediatamente. Após três horas estávamos em Porto Alegre”, relatou.
Salomão chegou e foi direto para realização de exames pré-operatórios. Era madrugada, mas infelizmente o órgão doado não servia para o paciente. “Foi triste. O órgão não era mais viável para transplantar. Há vários fatores que influenciam o transplante, como a caixa torácica do receptor, tamanho do órgão, tipo sanguíneo. Enfim, retornamos para Bagé. Eu estava bem debilitado”, declara.
Em uma semana, no máximo, novamente aconteceu a segunda e derradeira ligação do hospital Dom Vicente Scherer, da central de transplantes. “E quando chegamos, após exames do fígado, foi constatado que era totalmente compatível e entrei para a cirurgia. Após, cerca de oito horas, saí da sala e fui para a UTI do hospital, (segundo minha esposa). Tive complicações. Fiquei 21 dias internado e mais um mês em Porto Alegre, em constante observação. Após 60 dias, voltei para casa, com a certeza de que não iria morrer tão cedo. As consultas persistiam a cada 30 dias; após a cada 60 dias e, atualmente a cada 90 dias. Hoje, tomo dois comprimidos por dia, para impedir a rejeição.
Emocionado, o médico conta que descobriu de onde recebeu o seu órgão. “Eu sou motociclista. Minha vida, além da família e do trabalho, é em cima de uma moto. Descobri que meu doador era motociclista também. Morava em Curitiba e tinha 42 anos. Com relação a esta família do meu doador, confesso que tenho muita vontade de conhecer, pois a gratidão que tenho por eles é infinita. A doação é um ato de amor ao semelhante, ao anônimo que aguarda aflito por um órgão que irá lhe devolver à vida, a oportunidade de recomeçar, de criar seus filhos, de amar a sua esposa, seus pais. Doação se refere à morte, quando a morte não acontece em vão. Assim como eles doaram, a minha família é doadora e, certamente poderemos, um dia, ajudar outro semelhante a continuar sua caminhada nesta vida maravilhosa. A doação é vida! É um gesto de puro amor ao semelhante e ao ente querido que já se foi”, destaca. “Isso é humanidade, ato de amor. Incentivem a todos a serem doadores. Hoje tenho uma vida normal, me alimento normalmente, viajo, ando de moto, zelo pela minha família, trabalho e continuo exercendo minha profissão, ajudando meus semelhantes e a minha cidade. Minha vida e minha condição voltou a normalidade; já formei uma filha, agora falta pouco para os outros dois, graças ao gesto de um desconhecido e da sua família. Sejam doadores, pois nesta vida nunca sabemos do amanhã; pode ser que um dia precisemos continuar vivendo graças à doação”, concluiu.


O profissional por trás do transplante
Entre a retirada e o transplante de um órgão há uma série de etapas. Para que isso seja possível, é necessário que o órgão corresponda a uma série de exigências até chegar ao novo corpo. Essas etapas vão desde as mais simples, como a verificação do tipo sanguíneo, até uma série de análises realizadas pelo médico patologista. Esse profissional é o responsável por verificar se o órgão está em pleno funcionamento para desenvolver sua função em um novo organismo.
“Para que um órgão seja aceito em um corpo diferente, precisamos levar em conta não só a classificação sanguínea, mas o tamanho e a capacidade de desenvolver suas funções, pois em casos de mortes por infecção, por exemplo, o transplante pode ser descartado”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), Doutor Clóvis Klock. A equipe médica, além desses especialistas, também é responsável por encontrar um destino com critérios de proximidade, considerando o tempo útil do órgão fora do corpo, gravidade do paciente e o tempo na lista de espera.
“Quando há um alerta de possibilidade de doação, tudo tem que acontecer com muita rapidez, partindo da conversa com os familiares, passando pela busca por um paciente compatível. Todo o processo deve acontecer respeitando o tempo limite de sobrevida de um órgão, que pode variar. Um coração pode ficar parado por até quatro horas, já um fígado resiste até 12 horas fora de um corpo e um rim aguenta 36 horas sem circulação sanguínea”, comenta Klock.

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