ANO: 26 | Nº: 6524

Viviane Becker

viviminuano@hotmail.com
Colunista social do Jornal Minuano, Viviane Becker é experiente jornalista de geral e conhecida editora do caderno de variedades Ellas.
05/10/2018 Caderno Ellas

A SAUDADE

Foto: Reprodução JM

Cunhatay
Cunhatay

A SAUDADE

 

BOX:  # Essa é a crônica que encerra o livro "A minha Esquina", de Gerson Luis Barreto de Oliveira, lançado na última sexta-feira, no Museu Dom Diogo de Souza

 

 

 Meu pai Sírio Bianchetti de Oliveira tinha grande apreço pela memória dos seus professores, no Colégio Auxiliadora de Bagé.

Dois ele sempre citava, o professor Peri Coronel e seu irmão professor Jango. Uma família que daria à cidade seu último grande cavalheiro ainda vivo, o cidadão do mundo, mas sempre bajeense, poeta e publicitário Luiz Coronel. Tenho um dos seus livros autografados, o elegante e mesmo assim gauchesco “ Buçal de Prata“.

A referência elogiosa aos mestres era mesclada no saudosismo por uma época já remota enquanto meu pai fora aluno daquele colégio, e volta e meia ele recitava um poema do Peri:

“Saudade é uma dor que dá, mas não é dor de doer. É vontade de lembrar. É vontade de esquecer. Saudade é uma dor que machuca. Mas onde é não se vê. Que a gente pega e cutuca, para não deixar de doer”.

Segundo o que o pai recordava, este poema foi feito após um retorno do antigo professor ao lar da sua infância no interior rural. Ao se deparar com a antiga propriedade transformada em tapera ele teria suspirado de saudade e saíra num repente as lindas palavras.

E na estrada da vida era o momento já na velhice de meu pai suspirar de saudade pela casa que ele morou com minha mãe, no interior de Dom Pedrito. Uma casa secular, modesta, mas que havia se transformado em puro afeto para todos da família.

E lá vinha o poema novamente ser recitado, mal escondendo a lágrima que já se formava no canto do olho.

Lugares, por vezes, são também personagens familiares, e sua ausência muito sentida. A falta do banho do arroio, tocar as vacas para a mangueira, tirar o leite, levar os baldes cheios para minha mãe transformar em queijo era uma rotina que ele se esbaldava, pois na época ainda estava muito ativo, aproveitando aquela vida bucólica.

Havia uma camionete azul Chevrolet, pela pouca velocidade que conseguia imprimir ganhou o apelido de “ Maclaren “, para ressaltar ainda mais o quão lenta a vida poderia ser.

Mas os problemas de saúde começaram a pipocar e insisti com veemência que ficassem na cidade, e tudo foi sendo rápido, e decidi que teriam era que vir para São Gabriel, onde poderiam ver os netos crescerem e eu estaria sempre por perto.

Já morando nesta cidade, doente, num repente para distraí-lo eu propus, “ vamos melhorar para poder visitar o Cunhatay”. Com olhar desconsolado me fitou e falou: “Saudade é uma dor que dá…”

Me calei. Meu pai se foi aos pouquinhos, no ritmo da velha Maclaren. Minha mãe não, indômita que era foi numa velocidade surpreendente, sem dizer um ai, nem um adeus, partiu sem dor.

E fiquei eu com o poema do Peri Coronel na cabeça. Com uma saudade do tamanho de um trem, e sem querer voltar ao lugar da infância de toda a nossa família. Porque:

“Saudade é uma dor que machuca, mas onde é não se vê”.

Mais imagens

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias do caderno

Outras edições

Carregando...