ANO: 24 | Nº: 6064

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
06/10/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Meu amigo Heráclito

A primeira aula do professor é decisiva para conquistar admiração e respeito dos alunos. É nela que o discípulo faz a radiografia de seu mestre. Cria a impressão que vai assegurar ou não o sucesso da pedagogia empregada. Para ela o noviço deve se preparar como o comandante em definir a estratégia de um combate. É imperioso que esteja com domínio do conteúdo. Que transmita segurança. E que o comunique com agrado sua disciplina como se fosse a mais importante de todas a ponto de torna-la a predileta, embora sua aparente algidez.
Conto um episódio de minha formação acadêmica em biologia. O professor que impressionou a turma e se tornou paradigma de atenção e louvor era quem ministrava o tema mais árido e aparentemente deslocado no meio do ensino dos seres vivos: mineralogia. Era um engenheiro que falava de cristais, clivagem e outras lavras, aparentemente motivo para bocejos e distração, mas com tal paixão que virou avatar de assiduidade pelo amor que dedicava ao seu saber; e emoção num setor tão glacial.
No ensino jurídico não basta saber “de cor” artigos ou referir doutrinadores de biblioteca, mas é preciso “humanizar” a aula, esmiuçar, trabalhar com técnicas modernas de integração e colóquio, abandonando a solitária exposição e a atuação monossilábica, tornando agradável a convivência e fértil a narrativa, “quebrando” a higidez da ciência com enlaces interdisciplinares que sirvam para um diálogo construtivo e fecundo. Enfim: uma aprendizagem completa.
Às vezes brinco com os alunos dizendo que o professor deva ter um “verniz de erudição” ou um “conhecimento geral” que faça os primeiros dias se transformar em férias constantes pelo ameno convívio que se eterniza. Não é só “o direito” que deve dominar, mas manejar outras ferramentas como a literatura, filosofia, música, futebol, medicina, internet, a resenha e “outros radares” da modernidade para tirar o bacharelismo de sua face formal. Há pouco, em conclave internacional, assisti notável jurista ilustrar a palestra sobre “inovação e tecnologia” com exemplo que muito usei. Narro dita experiência.
A aula inicial sobre “processo” impunha, primeiro, uma acepção semântica da palavra e sua origem latina (procedere) que significa “ir adiante” “avançar”. Assim, o “processo é dinâmico”, formada por etapas (procedimentos) que caminham em direção a um objetivo final (teleológico, para capturar um novo termo). E aí vinha a “cereja do bolo”: o processo é “dialético”, diz o educador com pompa.
Dialética é a arte do diálogo, uma forma de discurso, de interlocutores em busca da verdade; melhor: é o conflito entre princípios ou fenômenos teóricos (aqui o professor faz breve e ilustrativo caminho pela filosofia, Platão, Sócrates e outros). No processo, como na dialética, uma das partes afirma sua verdade, ou “tese”, como é a denúncia do Ministério Público que pede a condenação. Mas a ela se contrapõe sempre outra verdade, ou “antítese”, a defesa do acusado em amparo de sua liberdade. O “conflito” entre essas duas verdades gera uma terceira, a sentença, que será a “síntese”, ou conclusão judicial” tomada sobre as duas versões em debate. Mas em obediência à dialética a controvérsia não se finda, nem o percurso dialético, pois a sentença é nova tese que chamará outra antítese (apelação), exigindo outra “síntese”, e assim sucessivamente.
Quem imaginou a dialética foi Heráclito, um pré-socrático (Éfeso, 535 a.C., 475 a. C), conhecido como O Obscuro, que se conhece pela frase: “ Entramos e não entramos no mesmo rio, somos e não somos”. Traduzindo: ninguém é o mesmo quando se banha num rio, nem o rio nem nós. A água não é a mesma, nem nós somos iguais, segundos depois de mergulhar. Tudo muda, tudo evolui. Tudo está em movimento. Quando escrevo isso já mudei. Isso é a dialética que Hegel sistematizou. O perfeito é o imperfeito. O certo é a mudança. O impermanente é o permanente.
Assim ninguém deve se assustar com a inovação, com o desenvolvimento da técnica, com a mudança dos costumes, com o domínio robotizado. Tudo muda, tudo evolui. É a regra. Dito isso ouve-se o sinal do fim da aula.
E o professor vai para o abraço.

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