ANO: 25 | Nº: 6334
06/10/2018 Coisas de Bagé

O que me contas?

Foto: Hallana Oliveira/ Especial JM

Jornal “O 28 de Setembro” representou imprensa negra
Jornal “O 28 de Setembro” representou imprensa negra

Por: Hallana Oliveira
Acadêmica de Jornalismo da Urcamp

A imprensa é uma das fontes históricas mais ricas para historiadores e pesquisadores de época, através desses textos é possível saber sobre o cotidiano de um povo, informações que marcaram uma geração e acontecimentos políticos.
Em Bagé, encontramos curiosidades históricas sobre a imprensa que se destacam pela produção de periódicos e jornais da imprensa negra e feminista.
O Rio Grande do Sul e boa parte do Brasil, segundo a historiadora Clarisse Ismério, é formado por uma imprensa opinativa, que possui seu viés pelas questões potenciais e particularizadas de um determinado grupo ideológico. Diferentemente do que encontramos hoje, “na época [século passado] cada jornal tinha uma proposta editorial dentro de uma convicção ideológica”.
Submersos nesse mar de representações simbólicas, jornais da imprensa negra e da feminista, conseguiram dar voz a diferentes públicos gaúchos, mostrando que sim, no Rio Grande do Sul e em Bagé existem diversas vozes e todas devem ser ouvidas na mesma intensidade.


Imprensa Negra
Como o próprio nome já diz, a imprensa negra, que teve sua alavancada no século XIX, tinha o principal objetivo de levantar debates acerca da cidadania de pessoas negras e principalmente, o combate ao racismo estrutural, construindo narrativas que promovessem a emancipação desta população.
Segundo o mestrando em história pela Universidade Federal de Pelotas, Tiago Silva, em Bagé e no Estado todo, no período pós-abolição, foram criadas uma série de iniciativas de manifestar a indignação desse povo, como a imprensa negra, e os próprios clubes sociais.
“Eram periódicos construídos e dirigidos por intelectuais negros que manifestavam sua opinião sobre todas as questões que diziam respeito à população negra, como práticas de sociabilidade, eventos sociais e também debatiam os projetos políticos da população negra, ou seja, debatendo sobre o que é ser negro naquela época, acesso à educação, moradia, com vistas a melhorar as condições de vida daquela população”, salienta Silva.
Outro dado levantado por Silva foi que os intelectuais que escreviam nesses periódicos faziam parte da sociedade de classe. “Eram negros [ em sua maioria] que tinham uma certa mobilidade social, até porque esses jornais não circulavam para toda a comunidade negra, pois a grande parcela não sabia ler”, destaca. São pessoas que conseguiram ascender socialmente e que queriam levar esse tipo de debate para outras pessoas negras.
Silva contou à redação que conseguiu coletar 13 jornais da imprensa negra nos períodos de 1913 a 1950. Dentre os jornais estão Revolta, de 1925; O teimoso, formado pela comunidade carnavalesca As Teimosas, composta por mulheres; jornal Palmeira; O boato; 28 de setembro; entre outros.

Imprensa Feminista
Fugindo dos jornais convencionais e sendo um dos pioneiros na Imprensa feminista, o Escrinio, criado pela professora Andradina de Oliveira em 1898, se propôs a pensar a mulher longe de seu papel socialmente estabelecido, refletindo sobre as condições de vida delas, em todo o Estado, antes da Revolução Farroupilha.
Considerado um dos grandes jornais feministas do País, segundo Ismério, “foi criado em uma sociedade que era dita como machista e patriarcal, mas deu voz para o nascimento desta publicação que circulou inicialmente em Bagé e depois em Santa Maria e Porto Alegre”.
Conforme a historiadora, os redatores do jornal não eram somente mulheres de relevância social, mas também, homens que compactuavam com a proposta do periódico, que era “dar voz a mulher, não meramente através de poemas, mostrando elas enquanto uma ação social, transformadoras e atuantes na sociedade”.
Debatendo questões cotidianas que diziam respeito ao público feminino, os jornais com a mesma proposta editorial tinham seus textos replicados, como é o caso dos textos das irmãs Revocada Heloisa de Melo e Julieta de Melo Monteiro, de Rio Grande, editoras do jornal Curimbo.
“Muitos faziam o contrato de casamento porque delimitava o espaço da mulher dentro da casa, naquela sociedade, e o jornal Curimbo vai dizer que não pode ser assim. Elas descrevem e mostram que isso estava errado. E, depois, essas informações eram replicadas para outros jornais, havia essa conversa entre as redatoras”, destaca Ismério.


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