ANO: 24 | Nº: 6108

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
11/10/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Imundos

Uma das afirmações usuais que possui grande receptividade social é a de que beleza é uma mera questão de gosto pessoal. Se isso for verdadeiro, o que nos conduz a um relativismo estético, qualquer tentativa de debate em torno do tema se torna árido: argumentar sobre as mais variadas subjetividades existentes seria tarefa sobre-humana.

Mas esse individualismo sentimental, que afasta qualquer noção minimamente racional e universal sobre como classificar o que é belo (e o que não é), cobra seu preço. Havendo uma perda de significado social compartilhado, ergue-se uma torrente de impressões individuais estéticas que julgam ser absurdo a apresentação de qualquer crítica contrária a gostos personalizados. Como crianças mimadas centradas em seus umbigos, nada pode desfazer juízos de valor particulares. Assim, a crítica aqui demonstrada, em um universo dominado por essa forma de pensar, é vista como absurda, alienígena e anacrônica.

Em fevereiro deste ano, foi noticiado nos jornais britânicos Daily Mail e The Sun que uma porca pintava quadros e os vendia por cerca de 1.000 euros cada. Batizada de Pigcasso, em homenagem a Pablo Picasso, a suína sul-africana já havia vendido 44 pinturas para pessoas do Reino Unido, EUA, Coreia do Sul e Malásia. Com isso, Pigcasso “lançou”, na Cidade do Cabo, sua própria galeria de artes, intitulada “Oink!”, e, nos meses seguintes, iria passar por Londres, Paris, Berlim e Amsterdam. A “obra” mais cara vendida por Pigcasso foi comprada por um colecionador holandês, que pagou algo em torno de 1.970 euros pelo quadro intitulado “Brexit” (uma instrumentalização animal para criticar políticas não alinhadas com o progressismo não faz mal a ninguém, não é?) e, de acordo com a ativista ambiental que cuida da porquinha, representa aquela palavra nas cores da bandeira britânica.

Claro que nada disso seria possível sem uma pitada dos “especialistas”. E foi o que fez a famosa crítica de arte Marjorie Allthorpe-Guyton: “Definitivamente, tem talento!”, disse sobre a porca. Por fim, a cuidadora de Pigcasso, Joanne Lefson, ainda declarou que o estilo da suína é expressionista, e que sua inspiração está nas paisagens da Cidade do Cabo.

Tempos rigorosamente sombrios aqueles que invertem os pilares que determinam a sanidade mental. Ainda mais obscuras são as épocas em que alguns indivíduos se vislumbram como luminares do progresso, declarando que qualquer visão minimamente objetiva acerca da beleza esbarra na questão sentimental do gosto particular.

Tal tipo de percepção relativista é rapidamente tomada como correta “porque parece libertar o homem do fardo da cultura”, como afirma Roger Scruton, na obra “Beleza”. Em outras palavras, permite-se que cada um possa, por meio de juízos pessoais, ser a fonte e o limite do conhecimento, esquecendo, propositalmente, do legado civilizacional que nos formou.

Entender que Pigcasso executa obras de arte é um grande sintoma da demência social, resultante de posturas anárquicas que desprezam a busca pela verdade. Nada contra a porquinha. Com certeza, seus rabiscos são mais belos do que o de muitos seres humanos. Mas, se existe uma inclinação natural a buscar o que é belo em nossas vidas, afinal, a beleza salta aos olhos, por qual razão observamos com passividade a imundície que abunda a racionalidade contemporânea?

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