ANO: 25 | Nº: 6335

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
12/10/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Dom Pedro I andou perto de Bagé

Em 1821, a Banda Oriental do Uruguai estava incorporada ao Império do Brasil sob o nome de Província Cisplatina, fato que tinha em Dom Pedro I um entusiasta, talvez pelo desejo de imitar o ex-cunhado Napoleão Bonaparte, pois Leopoldina era irmã de Maria Luíza, que fora casada com o corso. Em 1825 há o episódio dos “ 33 Orientales” e das lutas pela independência uruguaia com ajuda do Exército e Marinha argentinos.
Na “Fala do Trono” de 1826 Dom Pedro I alerta que, no país, somente a Cisplatina não estava sossegada e que cabia à honra nacional garantir a integridade do Império. A oposição a ele era crescente, aliado às derrotas brasileiras, como a sofrida por Bento Gonçalves e Bento Manuel Ribeiro na batalha de Sarandi. Para as tropas a situação era precária, faltavam uniformes, calçados, cavalos, armas, munições, remédios e especialmente o soldo, atrasado em cinco meses. A desorganização era visível, o ânimo péssimo, disenteria e gripe afetavam os guerreiros. Comida de má qualidade.
Esse conjunto faz Dom Pedro I viajar ao Sul a fim de “colocar a casa em ordem”. Para tanto, nomeia o Visconde de Barbacena para comandar o Exército, infelizmente uma pessoa inteiramente despreparada, diplomata, homem da Corte e estadista. No lado oposto, Fructuoso Rivera colhe louros e quase anexa a Banda Oriental. A viagem, segundo historiadores, também tinha razão política, fugir de uma oposição progressiva; e familiar, pois a relação com Domitila escandalizava; e Leopoldina, amada pelo povo, demonstrava, embora com altivez, uma saúde cada vez mais debilitada.
A frota imperial parte do Rio de Janeiro para o Sul no dia 24 de novembro de 1826, e, como se murmurava, Dom Pedro ia para a Guerra, mas não para guerrear”. Seu o objetivo era reorganizar o Exército e a Marinha, levar alento às tropas e otimizar ações, achando que a presença do soberano seria capaz de mudar o destino da refrega. Conta-se que antes do beija-mão de despedida, o Imperador teria agredido Leopoldina, ou chutado o ventre grávido, possivelmente revoltado com terem impedido a Marquesa de Santos de presenciar a cerimônia.
Em 29 de novembro, a nau que traz o Imperador e sua comitiva aporta na Baía de Canas Vieira, em Desterro (Florianópolis), tendo antes, nas águas do Atlântico, se defrontado com as corvetas argentinas Chacabuco e Sarandi, de bandeira francesa. A primeira, sob o comando do inglês Jorge Bynon, tinha apresado outros navios brasileiros e tomado de assalto a cidade de São Sebastião, na costa paulista. A Nau “Dom Pedro I” consegue safar-se daquele ataque corsário.
Dom Pedro não desembarca e no dia seguinte desce na Ponta do Sambaqui, já Ilha de Santa Catarina. Dias antes o soberano elevara a Vila de N.S. do Desterro à condição de Cidade, o que desagrada os habitantes ante a possibilidade de ser conhecida como a “terra dos desterrados ou proscritos”. Segue o monarca, depois, pela costa até o centro de Desterro e assiste missa.
Na madrugada seguinte desloca-se até N.S. de Araçatuba, uma das últimas fortificações construídas por Silva Paes, iniciando-se a longa jornada a cavalo, e pela praia. O cavalo havia sido introduzido em Santa Catarina por “Cabeça de Vaca”, explorador espanhol. A caravana atinge Palhoça, Guarda do Embaú, Garopaba e Armação (antiga estação baleeira). Já era 2 de dezembro. Depois a cavalgada chega a Laguna, o Imperador assiste missa; e logo seguem para Araranguá e Arroio do Silva, daí pelo Mampituba ao Passo de Torres, já na Província de São Pedro, isso em 5 de dezembro de 1826, área então pertencente a Santo Antonio da Patrulha. O monarca teria pernoitado, depois, em Arroio do Sal.
Seguindo a trajetória alcança a Lagoa dos Quadros, hoje Capão da Canoa. Ansioso, Dom Pedro atinge Viamão e, finalmente, a Porto Alegre, em 7 de dezembro, ali permanecendo por vários dias, submisso a numerosas homenagens e visitas. Avança dali em 16 de dezembro pela Lagoa dos Patos em direção a Rio Grande e São José do Norte. Navegara 300 quilômetros marítimos com o iate Lemos. Em 18 de dezembro de 1826 está próximo da guerra, cerca de 250 quilômetros. Desce e se hospeda em São José do Norte, indo depois para o Rio Grande. Em 21 de dezembro Dom Pedro conhece do falecimento de Dona Leopoldina acontecido em 11 de dezembro. Em 22 de dezembro o Imperador retorna a Porto Alegre, chega dia 23. Apesar do luto e necessidade urgente de voltar à Corte, então sensibilizada pelos últimos eventos, Dom Pedro, estrategicamente, permanece alguns dias na metrópole gaúcha. Depois incide para o litoral. Em 25 de dezembro está em Torres. Finalmente ancora em Florianópolis, de onde ruma para o Rio de Janeiro em 4 de janeiro de 1827.
Como se vê, Dom Pedro I andou perto de Bagé, talvez lugar de onde melhor alcançaria sua Cisplatina.
Fonte: “A maluca viagem de Dom Pedro I pelo Sul do Brasil”, de Nelson Adams Filho, Edigal, 2017

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...