ANO: 25 | Nº: 6261

Fernando Risch

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Escritor
12/10/2018 Fernando Risch (Opinião)

Facho de luz

Atordoa-me a insensatez da ode ao sacoleiro. O sacoleiro que saca do bolso o senso bruto da pancada no invisível. Vá lá, grita o sacoleiro, sacode e rebimba o pobre diabo do outro lado. E o orangotango, sobrevivente de uma eritoblastose cultural, diz a si mesmo que sim, ele pode. Vá lá, ecoa na cabeça do babuíno, e ele vai e faz. Pluct, plact, zum. Risadas e deboches, emulando armíferos da cruz budista, a tocar tambores rubro-negros.

Que fizemos eu e você para merecermos tal inevitável destino de inverdades sem mea culpa? Da voz muxoxa rastejando antes da hora pelo temor do dobrar de esquina; de uma ansiedade in natura, primitiva, temendo pelo enfadonho encontro na sombra da marquise com um paladino peludo e apedeuta, incapaz de ligar A com B num pensamento binário e de perceber a treva que avisa, imbuído das missões indiretas, regurgitadas em temerárias falas guturais, cuspidas em sangue pelo sacoleiro irresponsável.

O que eu faço, o que tu fazes, faz do facho de luz a negritude opaca do nada. Quando o facho se acende, e se ascende, e não compreende quem da luz o fez escuridão, faz do facho luz que não ilumina nem elucida.

Ah, aqueles tempos em que o pano escarlate nos tapava a face num tecido grosso como o ar e o grito que se ecoava, enraivecido do orgulho arranhado, dos libertados por aqueles que não queriam que lhe dessem a liberdade, não era impedido nem retrucado. Trevas brancas onde os fachos que iluminam o escuro com o passado engalfinhavam-se no armário do esquecimento.

Vá, vá e faz, diz o sacoleiro convalescido, fazendo-se de sonso, ao girar a maçaneta soldada com poeira, sangue e ossadas sem nome, pondo sua face como o facho libertário dos envergonhados da história. Vá, vá e faz, e uma mão segura outra e a pousa sobre o cabo encouraçado da adaga.

Faça, pois há de ser tudo da lei, brada o sacoleiro. E quando se viu, não havia mais nenhum escondido. Todos soltos, à luz do facho, engrandecidos de poder próprio, juízes em um discernimento pessoal, para fazer o encontro entre o ferro frio e o jorro quente do caos.

Quando se aperceberem os incautos ao beberem da barbárie, a barbárie será servida nas torneiras, vinda de autarquias que cobram pelo metro cúbico de fel.

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