ANO: 25 | Nº: 6254
17/10/2018 Luiz Coronel (Opinião)

Uma eleição impactual ou: "O amanhecer não se abre com facas"

1. Dispa-se de ideias preconcebidas, guarde atrás da porta dogmas ideológicos, venha em direção às eleições 2018 desarmado de certezas. Tenho para mim que a eleição foi, antes, e acima de tudo, um severo e cabal julgamento da classe política, dos partidos, dos três poderes da república incompetentes, todos eles para definir caminhos e encontrar solução aos impasses econômicos e sociais do País.

2. Em política, não há cadeiras vazias. Se Jair Bolsonaro, alheio ao suporte eleitoral dos partidos, agigantou-se e os derrotou eleitoralmente, somos levados a perceber que um poder subterrâneo, mas efetivo durante a campanha ocupou o espaço vazio. Então, temos a bancada ruralista, a bancada evangélica, funcionando como guindastes que elevam ao poder uma legião de novos candidatos.

3. Esta eleição foi um tsunami político. Não falarei em implosão de partidos ou de garbosas lideranças, pois "na guerra morre-se uma vez. Em política, muitas vezes", pois acontecem ressurreições. Quem se acreditava em cadeira cativa "de repente, não mais que de repente," se viu de cócoras, explicando ao vento seu desalento. A eleição de 2018 foi uma vitória triunfal do descontentamento contra a acomodação ou continuísmo. Agora, caberá conferir aos vencedores um crédito de confiança.

4. O caráter belicoso ou hostil da eleição 2018 não nos credita a um julgamento malévolo dos eleitores brasileiros. Os partidários do líder presidiário mantiveram-se crédulos nos apelos de inclusão social alcançados ou prometidos pelo partido dos trabalhadores e similares. Não eram nem são cúmplices da corrupção, apenas subestimam esses fatos nefastos. Os eleitores de Bolsonaro não são fascistas, apenas abrigaram-se na esperança de superação de um ciclo histórico, cuja herança se tornou indefensável. Este olhar benevolente nos une, quando não são poucos os empenhos a nos dividir perigosamente.

5. "O amanhecer não se abre com facas". Sem estabilidade não há crescimento econômico. Somos ilhas de modernidade num oceano de atraso. Adiamos, há meio século, as reformas imprescindíveis. Estamos ante uma tarefa histórica. Habilidade, prudência e sabedoria são as escavadeiras para abrir novos caminhos. Muitas águas ainda vão correr embaixo da ponte. Há um segundo turno. Lembremos: "O homem não cria problemas que ele próprio não possa resolver", escreveu Marx. Vamos acreditar nisso.

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