ANO: 25 | Nº: 6212

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
18/10/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Um arteiro sem arte

Nada pode ser mais patético e autodestrutivo para o universo das artes do que a ideia da impossibilidade de definição do que é arte. Essa filha do relativismo estético produziu um grupo seleto de especialistas, que impedem críticas sobre o que é produzido, sob pena de imputar ao seu detrator a pecha de moralista.

Tentar definir o que é arte, ou melhor, boa arte, passou a ser tarefa de indivíduos decrépitos. A ordem do momento é chocar, provocar, ousar e, por que não, lacrar. Sem esses objetivos rasteiros, harmonizados com ideologias bem conhecidas, parece que não são preenchidos os critérios que podem elevar o status de um artista, por mais que o choque, a provocação, a ousadia e a lacração sejam tristes comprovações da ausência de um significado profundo.

Banksy, grafiteiro de identidade não revelada, que produz sua “arte” por meio do estêncil e sem autorização das paredes alheias, gozando de enorme prestígio entre celebridades, conseguiu “causar” com mais uma de suas aparições fantasmagóricas. No inicio do mês, na renomada casa de leilões Sotheby’s, foi arrematada uma “obra” de sua autoria: o famoso estêncil “Menina com balão”. O valor? Cerca de 1,2 milhões de euros. Imediatamente após o lance que adquiriu essa peça, o desenho foi parcialmente triturado por um cortador de papéis que estava escondido na moldura do quadro. Metade da pintura permaneceu intacta, e a outra metade virou tirinhas. Tudo arquitetado por Banksy, com o objetivo de criticar a mercantilização da arte. Após o ocorrido, a empresa Pest Control, que representa o “artista”, declarou que a obra passou a se chamar “O amor está no lixo”. Mesmo diante da destruição parcial, a compradora da peça confirmou que irá pagar o preço ajustado no leilão.

As curiosas impressões que se seguiram são fantásticas. O chefe de arte contemporânea da Sotheby’s, Alex Branczik, declarou que essa foi “a primeira obra de arte da história a ser criada ao vivo em um leilão”. Um cidadão de nome Dennis, ansioso por ver o resultado dessa nova “arte”, declarou: “Não sei nada sobre arte, mas nunca perderia a chance de fazer uma foto ao lado do que todo mundo está comentando”. Já Carolina, outra espectadora, afirmou: “Claro que é arte. Banksy foi capaz de enganar todo mundo e dar uma bofetada na cara deste mundo de presunçosos”.

Se a arte faz parte da cultura de uma tradição, é inegável que o estado da arte serve como parâmetro para medir o nível dessa cultura. Quem já viu alguma vez o estêncil de Banksy, sabe que ela não passa... de uma simples garota com um balão vermelho! E que, em 2017, foi eleita a obra favorita dos britânicos. Uma grande bofetada... na verdadeira arte! Em Banksy, não são encontrados significados profundos; não há complexidade no ato; não há dificuldade de interpretação; não existe ambiguidade ou árduo trabalho estético. Passou a ser arte em razão da popularidade. O enlevo da alma e a busca por um sentido da vida são fatores exógenos ao seu trabalho.

O crítico de arte do jornal The Guardian, Jonathan Jones, afirmou que, para ser generoso com Banksy, poderíamos chamá-lo de um brilhante propagandista, dada a obviedade do que cria. Nunca de um artista. E Jones acrescentou: “Ele inventou o equivalente artístico de um tweet. Você vê, você entende. Isso é realmente tudo o que queremos?”. Talvez seja...

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