ANO: 25 | Nº: 6261

Airton Gusmão

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Pároco da Catedral
20/10/2018 Airton Gusmão (Opinião)

É preciso cultivar a tolerância, a paciência e a mansidão

“Jesus os chamou e disse: vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (Mc 10,35-45).
Vivemos, como diz um autor, tempos líquidos, onde parece que o ser humano mostra com maior intensidade a sua “animalidade”, sem a presença fundamental da razão e, muitos que se dizem cristãos, refletem e agem como se não fossem cristãos. Tempos de maldades, de violências, de intolerâncias, de desprezo pela vida, sem referenciais normativos e disciplinadores de posturas que chegam à desumanização.
Talvez, para ajudar a ler os subterrâneos “desumanos” dos humanos, com todas as suas consequências destrutivas, nos âmbitos pessoais e sociais, pode ser útil lembrar do fundamentalismo, como aquela atitude mental que se expressa de maneira agressivamente fanática, proselitista, não-crítica e fechada a todo diálogo. A pessoa fundamentalista teme as mudanças, teme o pluralismo, teme a liberdade, teme o amadurecimento adulto; o que no fundo revela uma profunda insegurança psicológica, sendo intolerante, se considerando “dono” da verdade, com uma visão dualista e maniqueísta da realidade: existem os “bons” (eles) e os “maus” (os outros que devem ser rejeitados), fazendo uso ainda do nome de Deus, que é instrumentalizado para justificar o que diz e faz.
Na Exortação apostólica sobre o chamado à santidade no mundo atual, o Papa Francisco apresenta algumas características da santidade hoje. Uma delas é a da tolerância, paciência e mansidão (nº 112-121). Ele nos diz, neste sentido, que é preciso “permanecer centrado, firme em Deus que ama e sustenta”. E que por isso, “a partir dessa firmeza interior, é possível aguentar, suportar as contrariedades, as vicissitudes da vida e também as agressões dos outros, nos recordando a frase paulina: ‘se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8,31)’. Como resultado desta experiência e confiança no Deus da vida, ele dirá que “em tal solidez interior, o testemunho de santidade, no nosso mundo volúvel e agressivo, é feito de paciência e constância no bem”.
Nesta linha de reflexão, o papa está a nos lembrar algumas atitudes que devemos cultivar e testemunhar diante de adversidades que desafiam o nosso ser cristão: “São Paulo convidava os cristãos de Roma a não pagar a ninguém o mal com o mal (Rm 12,17), a não fazer-se justiça por conta própria (12,19), nem a deixar-se vencer pelo mal, mas a vencer o mal com o bem (12,21)”.
Diante da consciência de que todo ser humano é potencialmente alguém que pode cometer atos ilícitos, ética e moralmente condenáveis, o papa tem a nos dizer que “é preciso lutar e estar atentos às nossas inclinações agressivas e egocêntricas, para não deixar que ganhem raízes: ‘Podeis irar-vos, contanto que não pequeis. Não se ponha o sol sobre vossa ira’ (Ef 4,26).
Ele nos diz também que “a firmeza interior, que é obra da graça, impede de nos deixarmos arrastar pela violência que invade a vida social, porque a graça aplaca a vaidade e torna possível a mansidão do coração”. Sobre esta característica da santidade, diz que “não nos faz bem olhar com altivez, assumir o papel e juízes sem piedade, considerar os outros como indignos e pretender continuamente dar lições”.
Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e solidários com os que sofrem. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.

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