ANO: 25 | Nº: 6312

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
20/10/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Entre Punta del Este e Porto Seguro

Entre amigos costumo dizer que a melhor maneira de dimensionarmos a nossa pobreza, sem gastar uma fortuna, é visitando Punta del Este, distante pouco menos de quinhentos quilômetros de nossa Rainha da Fronteira. Naquele balneário de Maldonado, internacionalmente conhecido pelo luxo e charme, a ostentação é onipresente e até virou mais uma atração turística, sobretudo para "nosotros", farofeiros tupiniquins.
Certa vez, no cassino do Conrad, vi uma turista gastar em uma máquina caça-níquel, em poucos minutos, mais dinheiro do que eu havia levado para passar quatro dias acampado no San Rafael com minha esposa. A gastança desmedida em ostentação, lazer e supérfluos é impressionante.
Outra curiosidade a respeito do balneário é a estrada que leva a gente até lá. Uma estrada precária, mal conservada e sem nenhuma sinalização indicando Punta del Este. Arrisco-me a dizer inclusive que, se nada mudou nos últimos anos, indo por Aiguá, a gente chega em Punta sem ler uma placa sequer indicando o balneário. A primeira vez que fui lá, ironizei dizendo que isso era de propósito, pois os governantes uruguaios não fazem muita questão da presença dos farofeiros brasileiros por aquelas areias, por isso é que ele é quase escondido pelo acesso terrestre. Os turistas que interessam aos castelhanos são os magnatas que chegam pelo ar ou pelo mar.
Brincadeiras a parte, de fato, existem lugares no mundo que são desenhados para poucos e frequentados por poucos e isso acaba se tornando até parte da mística destas localidades. Aqui no Sul,a serra gaúcha proporciona este tipo de sensação, assim como alguns balneários de Florianópolis. E não é diferente em outras tantas localidades do mundo, destinadas ao turismo de luxo.
Pois bem, neste ano, tive a oportunidade de visitar, pela primeira vez na vida, o nordeste brasileiro, mais especificamente Porto Seguro, onde tudo começou, 518 anos atrás, com Pedro Álvares Cabral. Parti daqui não só com a curiosidade histórica de pisar na terra onde pisaram nossos primeiros colonizadores, mas também com a expectativa de me banhar nas quentes e cristalinas águas do mar nordestino.
De fato a água do mar de Porto Seguro não estava fria, mas para quente faltou um pouquinho. E também não estava cristalina! Ao chegar na praia do Mutá pela primeira vez, num lindo e quente dia de sol, percebi que pouca gente estava se banhando no mar. Cancheiro velho, sentei na sombra e, tomando um mate com a patroa, comecei a observar. Lá pelas quebradas, entra um paulista na água e não demorou muito para sair cheio de dor na perna após esbarrar em uma mãe d'água. Oh bichinho desgraçado! Aí entendi porque quase ninguém se banhava no mar. Dei azar! Fui visitar Porto Seguro exatamente na época do ano em que as medusas fazem o mesmo.
De qualquer forma, não ia sair de lá sem experimentar a água. Tomei coragem e, com muita cautela, tomei um banho rápido nas águas frescas e turvas de Porto Seguro. Não dá para dizer que foi uma experiência inesquecível, mas... valeu!
O resort "all inclusive" onde nos hospedamos era muito bom. Tão bom que quase não dava vontade de sair de lá, mas minha curiosidade histórica tinha que ser satisfeita. Esperamos um dia nublado e fomos conhecer a cidade e aí o contraste ficou ainda mais marcante. É impressionante a pobreza e a decadência do lugar. A gente fica cercado por tanto luxo e riqueza que quando sai para a rua se choca ainda mais com um quadro urbano bem diferente, até da nossa realidade aqui no Sul. Certamente, Porto Seguro não representa o nordeste inteiro, mas saí de lá com a impressão de que somos afortunados em todos os sentidos por vivermos aqui no sul, ou seja, se por um lado foi possível dimensionar minha pobreza visitando Punta, por outro, dimensionei minha riqueza visitando Porto Seguro.

 

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