ANO: 25 | Nº: 6382

Observatório da Mídia

25/10/2018 Observatório da Mídia (Opinião)

Expressão sim, mas com quanta liberdade?

Foto: Marcelo Rodriguez Barboza/ Especial JM

Por Victória Ferreira, acadêmica do 6º semestre do curso de Jornalismo

Que a liberdade de imprensa é o direito de um indivíduo de publicar e dispor de acesso à informação na forma de notícia sem a influência do Estado todos já sabem. Mas com a chegada da internet e o uso cada vez maior das redes sociais como meio de comunicação, até que ponto um profissional de Jornalismo dispõe verdadeiramente da sua liberdade?
Uma das principais características da internet é a possibilidade de interação que existe entre seus usuários. Sendo assim, uma notícia publicada em um portal online, já recebe um número considerável de comentários que os leitores podem fazer, mas essa mesma notícia compartilhada em rede social, mesmo que seja pelo perfil do próprio jornal, acaba se tornando uma enxurrada de ofensas, acusações e discussões. E se os leitores que se sentiram ofendidos forem mais extremistas, ali mesmo começa uma caçada implacável pelo profissional responsável pela matéria, seguida pela divulgação de dados pessoais do jornalista, que acaba recebendo ameaças em seu perfil e/ou até mesmo na própria caixa de correio eletrônico.
Recentemente, pouco antes do primeiro turno das eleições, aconteceu um desses casos. A repórter Marina Dias virou alvo de exposição indevida, assédio e difamação em redes sociais após a publicação da reportagem que contava que a ex-mulher de um dos presidenciáveis afirmou ter sofrido ameaça de morte do mesmo no Jornal Folha de São Paulo. Acontece que, após serem "incentivados" por figuras públicas a sempre pesquisar o jornalista por trás de uma matéria, alguns leitores divulgaram publicamente a foto e os dados pessoais de uma repórter da revista Encontro BH, que eles afirmaram erroneamente ser a autora da matéria "ofensiva". A repórter homônima à Marina recebeu ataques em seu perfil no Twitter, bem como na sua conta de e-mail e telefone pessoal.
De acordo com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), somente no ano de 2018, até o mês de setembro, esta seria a 58ª ocorrência registrada de assédio a jornalistas em meio digital no contexto das eleições. A associação ainda deixa claro que o número não é conclusivo, podendo haver casos que não foram documentados por eles.
Mas este problema não é novo por aqui. Em 2013, a repórter Daniela Lima, que também atuava na Folha, foi atacada enquanto fazia a cobertura do ato de 10 anos do governo do Partido dos Trabalhadores no país, onde foi vítima de ofensas e chegou a ser agredida fisicamente com um chute nas costas, enquanto era acusada de ser parte da "mídia golpista", recebendo uma nota emitida pelo partido onde a direção lamentava o ocorrido. E um ano depois, lá estava a mesma repórter, publicando uma matéria que desagradou outro público político e virou alvo de post em um blog onde diziam que a "repórter que levou pontapés da esquerda atacava a direita liberal". Daniela Lima também sofreu com o assédio em 2018, após participar do programa Roda Viva com um dos presidenciáveis, recebendo, durante meses, ofensas que, além de atingi-la como jornalista, a agrediam como mulher.
A triste verdade é que é bem provável que estes ataques sigam acontecendo, enquanto ainda existir o desrespeito entre seres humanos. O assédio direcionado a profissionais de comunicação por causa do seu trabalho está piorando em níveis alarmantes. Isso faz questionar quanta liberdade nos é realmente disposta e até que ponto poderemos realizar de forma séria o nosso trabalho, enquanto leitores extremistas continuarem interpretando as notícias da maneira que lhes convém. Promover a perseguição a jornalistas por discordância em relação ao que publicam é atentar diretamente contra a democracia, que há pouco foi conquistada com tanto esforço.

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