ANO: 25 | Nº: 6208

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
25/10/2018 João L. Roschildt (Opinião)

Rabiscos

Variações dos argumentos de autoridade são ótimas máscaras que disfarçam as irregularidades e falhas presentes no âmago da argumentação. Ao apelar para especialistas ou versados em determinado tema, tem-se uma das formas mais simplistas de tentar vencer um debate: o recurso à confiabilidade de alguém, independentemente de seus argumentos. A fama de um autor ou instituição, por exemplo, outorga a segurança para que algo seja tomado como verdadeiro, justo e belo. Mas isso não passa de um atestado da debilidade intelectual.

Há alguns dias, o jornal Folha de S. Paulo (edição online) trouxe a informação de que o "artista" plástico Samuel d'Saboia, também conhecido no Instagram (uau!) como Sarmurr, expôs sua produção em Nova Iorque. Em razão de mortes violentas que ocorreram em seu círculo de amizades, Sarmurr resolveu retratar tais situações em "obras de arte". Até aqui nada de anormal; afinal, essa é uma forma absolutamente legítima de expressar a dor de uma perda. Inclusive, fantásticas e universais produções artísticas tiveram inspiração em momentos angustiantes de nossa existência. Mas existe um detalhe crucial na reportagem. A foto das obras de Sarmurr. Qualquer cidadão com um senso comum minimamente ajustado com a estética que proporcionou a construção do sentido de nossa civilização, verificará que a produção do "artista" não passa de um grande e emaranhado conjunto de... rabiscos. Mas são muitos rabiscos. Rabiscos feios. Rabiscos descompassados. Enfim, rabiscos. Caso estivéssemos vivendo uma época relativamente sã do ponto de vista mental, nunca aqueles rabiscos ocupariam espaços destinados à arte. De forma absolutamente franca: crianças na mais tenra idade poderiam executar aquilo.

Mas, para chegar aos EUA, Sarmurr vendeu cerca de 20 telas no Brasil com preço inicial de R$ 4 mil cada. Em Nova Iorque, ele, que tentou cursar design gráfico, mas não o concluiu por algumas incompatibilidades ("vazei odiando metade dos professores", disse), acabou vendendo 5 telas por US$ 3 mil cada, o que lhe possibilitou bolsos mais cheios em outras duas exposições: Lisboa e Paris. E Sarmurr é direto: "Já fiz tela em dez minutos". Surreal! Rabiscos em dez minutos? É tempo demasiado.

No entanto, o Twitter do mencionado jornal foi capaz de guardar comentários dignos de nota. Enquanto alguns leitores criticavam a "arte" de Sarmurr pelas razões mais objetivas possíveis (rabiscos, ora bolas!), outros defendiam ardorosamente o "artista". Alguns veem em Samuel uma maneira única de expressar a realidade brasileira; um sujeito de vanguarda; um indivíduo muito talentoso com o abstrato. Mas a fina flor foi a afirmação de que haveria inveja com alguém que tinha sido bem sucedido em Nova Iorque. Ou seja, é o argumento de autoridade econômica: sucesso nessa área e receptividade midiática significam a pá de cal sobre os moribundos críticos que ousam desmerecer tamanhos... rabiscos. Contra fatos não há argumentos.

O produto "artístico" de Sarmurr, algo que pode ser encontrado em paredes de algumas universidades brasileiras, é uma grande manifestação de violência... contra a tela. Se alguns enxergam rabiscos, outros podem ver uma obra requintada. Ninguém pode ousar contrariar esse hegemônico relativismo estético, pois isso pode ser mais uma expressão do fascismo e do elitismo cultural.

 

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