ANO: 24 | Nº: 6163

Dilce Helena Alves Aguzzi

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Psicóloga
30/10/2018 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

Por que a conversa de verdade assusta?

Porque ouvir é mais difícil do que parece. É mais do que simplesmente parar de falar enquanto o outro diz algo. É abrir uma brecha em meio aos próprios pensamentos e realmente procurar escutar e compreender o que esta pessoa está dizendo, procurando, sinceramente, entender seu ponto de vista. Isto já é muito difícil, pois a maioria da pessoas apenas se distrai observando a boca de seu interlocutor se mexer, enquanto ele próprio pensa no que quer dizer a seguir. Isto, embora tenha a fala dos dois lados, não pode ser considerado verdadeiramente diálogo.

Os antigos gregos acreditavam que a dialética era a arte de chegar a verdade através do debate. Isto. Debate. Contraponto de lados e pensamentos. Para se contrapor é necessário ouvir. E, ao exercitar o ato de escutar, analisamos o que está sendo dito e nisso podemos nos transformar, aprender mais sobre o mundo, os outros e nós mesmos, inclusive sobre como nossos argumentos podem ser pobres ou equivocados. Sem o teste de ouvir o outro nunca saberemos.
Para o bom diálogo também é necessário expor ideias com sinceridade e bondade. Não é de se admirar que muita gente tenha medo de discutir a relação, pois o que deveria ser conversa se apresenta como uma enxurrada de críticas e reclamações que incita a defesa sem reflexão. Querer falar também deve envolver o desejo de ouvir.
Da arte do diálogo produtivo uma das regras básicas é não intimidar, seja com o olhar que comunica desaprovação, com o tom de voz que ameaça ou até mesmo na postura corporal que sinaliza que o outro corre perigo físico e real. É necessário desarmar-se e entregar-se ao gesto de ouvir mesmo que aquilo que está sendo dito à primeira vista possa parecer absurdo ou contra si. Ali, naquela mensagem, pode haver a possibilidade de crescimento. Afinal, por trás de qualquer ditador e tiranos de todo tipo há um ser humano diminuído e temeroso de ser rejeitado, por isso mesmo intimida para não ouvir divergência. Confundindo, assim, medo e silêncio com aprovação. Ou concordismo com acertividade.
É prova de sabedoria querer saber onde se está errando ou de que forma pode melhorar. Isso só se consegue com a vontade de ouvir o que tem a nos dizer aqueles com quem convivemos em casa ou no trabalho, por exemplo.
Sinal dos tempos egoístas que vivemos é ter o que dizer sem reflexão e sem disponibilidade para debater, e assim ouvir novas perspectivas sobre o tema em questão. Isso ocorre a todo momento nas redes sociais. Sem preparo ou sem pensar, é dito qualquer coisa, pois não é preciso ouvir a resposta ou se esta incomoda é fácil encerrar o pseudo debate excluindo a pessoa, a conversa ou, ainda, ridicularizando o ponto de vista contrário.
O crescimento está na divergência e na vontade de aprender com o diferente. Ouvir de verdade é gesto a ser ensinado e difundido numa educação verdadeira. Pois quem não ouve repete vida afora os mesmos erros e cala ou afasta-se daqueles que poderiam contribuir com sua própria evolução.

 

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