ANO: 25 | Nº: 6382

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
01/11/2018 João L. Roschildt (Opinião)

O autêntico meia-esquerda

Ser espetacular em alguma atividade da vida não implica excelência nas demais áreas de atuação. Uma constatação simplista e direta, mas que é alvo de grande miopia na atualidade. Por mais desilusão que isso possa provocar, o fato é que grandes ídolos podem ser péssimos em outras tarefas.

Por exemplo, talvez seja uma missão muito árdua criticar o ótimo desempenho do ator José de Abreu em suas novelas, algo que é diametralmente oposto ao seu comportamento político salivar de endeusamento a corruptos e ditadores da esquerda, o que facilita bastante a constatação de seu analfabetismo político. Ainda assim, existe parcela significativa da sociedade que vê, em grandes figuras públicas, o respaldo para a tomada de decisões em suas vidas. Esquecem-se que o seu Manoel da padaria ou o seu Paulo do açougue podem conhecer mais da realidade social do que o ilustre artista da Rede Globo.

Juninho Pernambucano foi um excepcional jogador de futebol. Sua qualidade na organização de jogo e na execução de passes, assim como a mentalidade vencedora em campo, impressionava a todos. Mas uma característica causava deleites aos apreciadores do futebol: a habilidade e precisão na cobrança de faltas. Tanto que foi considerado pelo físico inglês Ken Bray o melhor cobrador de faltas da história do futebol. É bem aceitável que possam existir pequenas discordâncias quanto ao nível do elogio direcionado a esse ex-jogador. No entanto, é inegável que seu trato com a bola lhe concedeu todos os louros que os craques merecem.

Mas o mesmo tino cerebral presente nos campos não se reproduz em suas análises políticas e sociais. Em uma entrevista para a edição online do jornal El País (05/10/2018), a primeira após ter saído da Globo e SporTV (por conta de uma ácida e sincera crítica pública aos maus profissionais que cobrem o dia a dia dos clubes de futebol), o ex-atleta abordou temas como a falta de conhecimento da crônica esportiva, racismo e política.

Em determinado momento, após tecer uma defesa ao ex-presidente Lula e afirmar que ele é massacrado pela sociedade brasileira por conta de preconceitos implícitos em nossa cultura, Juninho foi taxativo: “Eu me revolto quando vejo jogador e ex-jogador de direita. Nós viemos de baixo, fomos criados com a massa. Como vamos ficar do lado de lá? Vai apoiar Bolsonaro, meu irmão?”. Por que a indignação? Uma pessoa que tenha origem humilde e defenda pautas liberais e/ou conservadoras, é algo tão inaceitável? Não é uma escolha democrática?

O ponto aqui nem envolve o presidente eleito. O aspecto é mais profundo. Juninho quer que as pessoas pautem seus votos com base na esfarrapada consciência de classe marxista: a tolerância moral de uma escolha é determinada pelo grau de vinculação que alguém possui com o seu coletivo de origem. Fora desse esquadro, há fortes indícios de que o voto não foi consciente. Como se uma classe tivesse um pensamento monolítico. A burrice política sempre está do lado de lá. Para ele, a inteligência política existe quando ela é limitada pela aderência a supostos interesses do grupo ao qual se pertence.

Juninho habitualmente ocupava a faixa de campo da direita no futebol. Hoje, por uma escolha individual, reside nos EUA, país que representa muito bem o sucesso do capitalismo. Já na política, tem o comportamento típico da esquerda.

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