ANO: 24 | Nº: 6137

Fernando Risch

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Escritor
02/11/2018 Fernando Risch (Opinião)

O juiz está nu

Quando jovem, mais tolo do que sou hoje, sempre fui muito adepto de teorias conspiratórias. Embebia nelas diariamente, achando que o mundo era uma imensa ilusão programada. Certa vez, após levar uma reprimenda em aula de uma professora, em um momento que levantei hipóteses ridículas sobre os atentados de 11 de Setembro, eu aprendi minha lição e resolvi botar os pés no chão (fui reprovado na cadeira).

Nos anos recentes, a figura do juiz Sergio Moro sobrevoou a realidade política nacional e o imaginário popular. Tornou-se um popstar, uma celebridade. Nesta esteira de sucesso e bajulações, o juiz se envaideceu e suas decisões postas à prova, como parciais, por aqueles que por ele eram julgados. Teorias conspiratórias, a meu ver, e sempre tratei de levá-las assim, como ácido sulfúrico saído da língua de quem se defendia.

Então, veio o grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo, proferido pela boca desesperada e rodeada de um imenso bigode de Romero Jucá. A conspiração bebia de um diálogo aberto, vazado pelo próprio juiz Sérgio Moro, talvez em ato falho, para poder lançar a público, sem uma justificativa jurídica razoável, outros áudios, que alimentavam mais ainda aquela conspiração.

Mas os adeptos de Sérgio Moro gritavam junto, na mesma voz: não é conspiração, é a justiça sendo feita. Tudo bem. Vamos deixar as águas rolarem para ver onde vai parar, enquanto o magistrado bebia da fonte esgotável da vaidade e fama. E quando um só lado era condenado, este lado gritava e gritava, e o outro lado dizia: calma, já, já ele condenará os outros, queremos todos trancafiados.

E por mais que a conspiração não fosse real, como nunca creio em conspiração nenhuma, todo movimento vindo de Sérgio Moro dava razão para que acreditassem nisso. Era como se o holofote tivesse sido ligado sobre ele e ele sequer se importasse em fingir sua função dentro daquele teórico estratagema. Gritos e gritos contrários e ele lá, impávido colosso vestido em fraque curitibano, de Martini Bianco na mão e um sorriso desnivelado no rosto.

Pois agora, como no conto do dinamarquês Hans Christian Andersen, que fala sobre a vaidade humana, ao aceitar largar a toga de juiz para tornar-se Ministro da Justiça do governo Bolsonaro,  Moro está nu sob o auspício público que o julgará. Moro tira do corpo a toga e assume, finalmente, um papel político.

O futuro da Lava Jato ao destino pertence, seja seu fortalecimento ou seu derradeiro fim, para alegria de alguns amigos do rei. Ainda não creio em teorias conspiratórias, como bem minha professora me ensinou, mas não há mais muro que defenda o político Sérgio Moro da suspeição de seus críticos. Definitivamente, o juiz está nu.

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