ANO: 25 | Nº: 6210

Observatório da Mídia

08/11/2018 Observatório da Mídia (Opinião)

Jornalismo não é nem imparcial nem isento

Foto: Felipe Valduga

por Marcelo Rodríguez, acadêmico do 6º semestre de Jornalismo

Desde o primeiro momento em que coloca os pés em qualquer universidade do Brasil, o estudante de Jornalismo escuta que “deve ser imparcial”. Uma pretensa isenção que, repetida aos quatro ventos, repercute na opinião que a “sociedade” tem da imprensa como um todo. “Jornalista não tem que dar opinião, tem que dar os fatos”; “jornalista só tem que ter um lado, o da verdade”. Esse tipo de frase é possível ler/ouvir por parte de (pseudo)politizados, sem importar onde eles estejam localizados no espectro político.

O certo é que, assim como o Direito, a Filosofia, a Sociologia e a Educação, o Jornalismo é interpretativo. Feito por pessoas, ele analisa os acontecimentos cotidianos e os assuntos de interesse social de forma subjetiva, explícita ou implícita, mas sempre atrelada à cultura, à formação e ao contexto de quem escreve e do meio em que será veiculado. Da mesma forma, quem consome o conteúdo jornalístico o compreende a partir da sua subjetividade. Mas uma das coisas que a subjetividade não consegue passar por cima é da história.

Recentemente, a ombudsman da Folha de São Paulo, Paula Cesarino Costa, falava sobre um comunicado interno que a própria empresa distribuiu aos seus jornalistas, no qual apontava que “nas eleições 2018 não havia candidaturas extremistas”, ou seja, Jair Bolsonaro (PSL) deveria ser tratado apenas como um candidato de direita e Guilherme Boulos (PSOL) como candidato de esquerda. A orientação faz referência à última edição do Manual de Redação do jornal paulista, publicação utilizada como referência no ensino jornalístico.

Órgãos de imprensa do mundo todo, dos economicamente liberais de direita aos abertamente progressistas de esquerda, fazem uso de expressões que diferenciam os “extremistas” dos “moderados”. No caso da imprensa brasileira, tentar igualar o que é desigual acaba sendo tão falso quanto a avalanche de desinformação que inunda as redes sociais em uma época de pós-verdade. É negligente, considerando o utópico papel da mídia, não se preocupar com a dimensão histórica ao fazer essa equivalência.

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