ANO: 24 | Nº: 6084

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
08/11/2018 João L. Roschildt (Opinião)

O autêntico meia-esquerda II

Em debates políticos, é muito comum ouvir que, na prática, a teoria é outra. Algo como: na teoria, é uma coisa; na prática, é outra. Até mesmo o grande filósofo Immanuel Kant, com o rigor que lhe é característico, ocupou seus esforços em torno desse tema, ao escrever o texto "Sobre a expressão corrente: isto pode ser correto na teoria, mas nada vale na prática". O lado agradável de uma expressão popular é que ela sintetiza um sentimento prático difuso sem o pedantismo de rebuscadas teorias. Mas isso nem sempre está correto.

Quem teve a oportunidade de assistir ao sérvio Dejan Petković sabe o quão diferenciado era seu desempenho em um campo de futebol. Apesar de ser temperamental, possuía uma fina leitura de jogo. Passes que colocavam seus companheiros de equipe de frente para o gol eram corriqueiros. Em bolas paradas, seus chutes venenosos representavam verdadeiros tormentos para os goleiros adversários. Pet, como carinhosamente ficou conhecido no Brasil, fazia da velocidade de seus dribles uma arma mortal. Habilidoso, frequentemente gerava surpresas que desnorteavam a todos. Em 12 edições do Campeonato Brasileiro, marcou 83 gols em 268 partidas. Foi um craque dos relvados.

No entanto, entre a bola e a boca, muitas vezes há um hiato. Há alguns anos, ao ser questionado pela apresentadora Ana Maria Braga sobre como foi viver em um país com tantas dificuldades (referindo-se à Iugoslávia), o ex-jogador disse: "Quando eu nasci não tinha dificuldade nenhuma, era um país maravilha. A gente vivia um regime socialista, todo mundo bem [...]". É claro que a realidade vivenciada pela Iugoslávia, entre meados da década de 50 e início dos anos 80 do século passado, era parcialmente distinta dos demais países comunistas. Havia um estimulante mercado consumidor que emulava o capitalismo, e certa abertura cultural que tentava preservar aspectos liberais. Mas não se pode esquecer que foram bastante intensas as perseguições ideológicas e os expurgos contra aqueles que lutavam por liberdade contra o autoritário regime. Em suma, nem todos estavam tão bem, nem era aquela maravilha.

Já em entrevista para o El País, antes do jogo Brasil e Sérvia, válido pela Copa do Mundo de 2018, Pet, ao ser indagado sobre suas lembranças de infância na antiga Iugoslávia, declarou: "Eu vivi muito bem no socialismo [...]. A ideologia é fantástica, mas, na prática, não funcionava". Petković repisa em um dos principais ditos do esquerdismo contemporâneo: o de que deturparam os ideais socialistas. Ora, mas se a teoria é tão maravilhosa, tão bela, tão conhecedora das potencialidades da natureza humana e tão crente de que o paraíso na Terra é algo passível de ser atingido, por qual razão a execução desse planejamento sempre falhou em todos os continentes de nosso planeta? Não seria uma grande lição dos conservadores o fato de que somos fadados à imperfeição?

Teorias utópicas produzem estragos mentais e sociais incalculáveis. Pet sabe disso. Sabe tanto que, na mesma entrevista, ao responder se já se considera em casa no Brasil, afirmou: "Tenho duas casas [...]. Nenhuma delas é perfeita. Mas eu também não sou perfeito. Não existe perfeição na vida, muito menos um modelo de sociedade perfeita". Incoerência ou uma simples constatação de que as teorias de engenharia social não servem para a prática?

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