ANO: 24 | Nº: 6083

Fernando Risch

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Escritor
09/11/2018 Fernando Risch (Opinião)

Os negócios sem viés ideológico

Durante a campanha presidencial, nos poucos debates em que se fez presente, Bolsonaro repetia sempre a mesma frase quando ia elencar seus pontos para desenvolver a economia brasileira: "fazer negócios sem o viés ideológico". Imaginava-se que estava apenas jogando para torcida, querendo refutar, mesmo que indiretamente, aproximações com Cuba e Venezuela, por exemplo. Mas não.

Comecemos pelo fator "viés ideológico". Se os negócios não serão feitos por ideologia, quer dizer que até com países cujas ideologias políticas vigentes o futuro mandante brasileiro não concorda, como as citadas acima, estarão na mesa de negociação e abertas economicamente. Caso contrário, se a ideologia desses países for um empecilho para um acordo econômico, então a sanção ao negócio é ideológica e o discurso do presidente eleito, na verdade, é o oposto do que ele prega.

Isso remete à proposta da Escola Sem Partido, que, segundo seu criador e adeptos posteriores, visa o fim da "doutrinação ideológica" em sala de aula. Mas do que estamos falando afinal? Estamos falando em não ensinar nas escolas ideologias contrárias ao sistema vigente no país. Ou seja, a proposta Escola Sem Partido tem partido e é o partido em vigência, com a ideologia em vigência. Ora, como se refuta o marxismo, por exemplo, um ponto muito batido pela proposta, sem se estudar o marxismo? Sala de aula é local de livre pensamento e amplo debate.

Nesta semana, por uma questão ideológica, sim, Bolsonaro anunciou que vai mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, algo que, segundo ele, estreitaria as relações com o país economicamente. Sem contar o efeito que isso causa no brasileiros de origem árabe, principalmente palestinos, Bolsonaro já recebeu sua primeira resposta: uma comitiva liderada pela Ministro de Relações Exteriores Aloysio Nunes teve a viagem cancelada para reuniões com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi.

Cabe constar que a posição do Egito frente a Israel e a Autoridade Palestina é moderada, com outros países a reação poderá ser muito mais pesada. A Liga dos Países Árabes enviou nota à embaixada do Cairo condenando as declarações de Bolsonaro. Juntos, os países árabes são o segundo maior comprador de proteína animal brasileira. Em 2017, as exportações somaram 13,5 bilhões de dólares. Entre janeiro e setembro deste ano, o saldo com o Oriente Médio para o Brasil foi de 6,3 bilhões de dólares. No mesmo período, a balança com Israel teve um déficit de 256 milhões de dólares.

Outros dois pontos importantes, já apontados por Bolsonaro e equipe, principalmente Paulo Guedes, são o Mercosul e a China. Guedes afirmou que Mercosul "não é prioridade". Para o Brasil, o Mercosul representa o montante de 21,37 bilhões de dólares, com saldo comercial de 10 bilhões. Desses, três bilhões vêm da Venezuela. Já a China, aquele grande asiático híbrido entre o comunismo e o mercado aberto, representa um superávit comercial de 75 bilhões de dólares para o Brasil.

Negócios são negócios. Quebrar a relação comercial com estes países por "fazer negócios sem viés ideológico" é uma posição ideológica. E uma posição irresponsável, que destruiria a balança comercial do país. Fico imaginando o produtor rural de Bagé, que exporta carne para o mundo, principalmente aos árabes e asiáticos; esses, certamente, não ficarão satisfeitos se esses mercados se fecharem. Faz parte. São os negócios sem o viés ideológico.

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