ANO: 26 | Nº: 6523
10/11/2018 Cidade

Festival de Cinema da Fronteira completa 10 anos reinterpretando a arte

Foto: Reprodução JM

Troféu entregue aos premiados é uma obra de arte concebida e modelada pelo artista plástico Sérgio Coirolo
Troféu entregue aos premiados é uma obra de arte concebida e modelada pelo artista plástico Sérgio Coirolo
Por Vinícius Silva

Cada ser humano tem uma maneira própria de ver e interpretar a realidade. Essa percepção é afetada por diversos fatores - sociais, financeiros, sensoriais, ambientais etc. - e, em termos de estímulo, poucas coisas são tão eficientes e plurais quanto a arte. Sendo assim, mantendo a ideia de "fazer a cabeça" de quem o acompanha, o Festival Internacional de Cinema da Fronteira estimula o público não só com filmes. As artes plásticas e gráficas são parte fundamental do discurso e do diálogo que as produções audiovisuais exibidas estabelecem.
A imagem escolhida como base para o material gráfico do festival é uma serigrafia do artista plástico bajeense Glauco Rodrigues, um dos expoentes do Grupo de Bagé, cuja contribuição para a arte brasileira é inestimável. Contudo, assim como o evento em si, a logotipia evoluiu e se transformou ao longo dos anos.
Raridade
A imagem escolhida para marcar a décima edição do Festival Internacional de Cinema da Fronteira é especial. A pintura é uma raridade. Pertencente à série "A Lenda do Coati-Puru", e foi exposta apenas uma vez, ainda nos anos 1970. A série foi arrematada por um único colecionador, Marcel Telles, um dos maiores empresários e colecionadores de arte do País. Essa imagem foi retratada no acervo do colecionador em Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo.
Duas cidades, o mesmo padroeiro
Glauco Rodrigues começou a pintar em meados dos anos 1940. Sua primeira exposição foi em 1948 e, logo depois, o artista fixaria residência no Rio de Janeiro. Apesar de todas as diferenças entre as duas cidades, Bagé e a capital carioca têm algo em comum: o mesmo santo padroeiro. De acordo com a viúva do artista, Norma Pessoa, esse fato marcou toda a trajetória artística de Glauco Rodrigues. "Ele não era, necessariamente, católico, mas pode-se dizer que ele era bastante místico. Ele tinha um profundo respeito por essa coincidência, por vários motivos. Acredito que a imagem despertava memórias afetivas, também. Ele se lembrava de, desde muito pequeno, acompanhar os passantes da procissão do santo em Bagé, no entorno da Praça da Matriz", recorda Norma.
Segundo ela, Glauco começou a pintar imagens do santo no final dos anos 60. "Ele começou essa série - que se tornariam várias - na época da ditadura, pois a imagem de São Sebastião amarrado, flechado, era uma metáfora para o povo brasileiro, que estava sendo preso, censurado, torturado", completa Norma.
De acordo com o mito católico, Sebastião foi condenado à morte por flechadas, tendo sido posteriormente açoitado e decapitado. Segundo Norma, entre aquarelas, desenhos e pinturas, Glauco Rodrigues fez mais de 100 obras reproduzindo o santo. "Um tempo depois da morte do Glauco, a igreja que frequentávamos no Rio de Janeiro, por iniciativa do Monsenhor José Roberto Devellard, expôs uma série de São Sebastião dele em banners. Um tempo depois, levei para Bagé esse material, e também realizamos uma exposição belíssima", avalia Norma.
Segundo ela, Glauco não era muito favorável a alterações no seu trabalho. Contudo, ela permitiu as interferências por várias razões. "Ele sempre foi generoso e solícito com Bagé. Além disso, ele admirava muito o Zeca (Zeca Brito, idealizador do festival) e acredito que, por ser para Bagé e, se pudesse aprovar o trabalho, ele certamente teria cedido as imagens", conclui.
Evolução da marca
A figura de São Sebastião, padroeiro de Bagé, é carregada de simbolismo. Sua "morte" por meio de flechas se tornou a referência para diversas interpretações de sua imagem e são parte fundamental de sua iconografia. Vale explicar que, apesar das setas terem perfurado seu corpo, sua morte acabaria ocorrendo mais tarde, por açoitamento e decapitação. Dessa forma, São Sebastião se tornou símbolo de perseverança e tenacidade e é adotado em diversos segmentos, saindo da Igreja Católica, passando pela Umbanda e indo até grupos LGBT, por exemplo. Segundo a artista plástica Norma Vasconcellos, a imagem de São Sebastião é um símbolo de luta. "Ele representa todos aqueles que têm algo positivo no coração. O fato de ter enfrentado o imperador representa a luta contra todas as injustiça", pondera.
Vários artistas já reinterpretaram a arte de Glauco Rodrigues para o Festival da Fronteira. Em 2018, o trabalho ficou a cargo de Leo Lage, artista visual porto-alegrense com trabalho consistente em diversos produtos culturais, da literatura à música. Em seu portfólio estão capas de discos, pôsteres de filmes e festivais de cinema. "Comecei cedo. Com 16 anos já trabalhava em agência de publicidade e fiquei 10 anos dedicado a essa área", relembra. Mesmo focado na propaganda, Lage sempre separou um tempo para a área cultural e chegou a trabalhar com artistas plásticos renomados, como Vera Chaves Barcellos e Telmo Lannes. "Após um período em São Paulo, resolvi voltar para Porto Alegre e me dedicar somente a produtos culturais", explica. Seu contato com o festival se deu através do roteirista Leo Garcia, parceiro de Zeca Brito em diversos trabalhos para TV e cinema. É Lage quem assina a arte gráfica dos filmes "Em 97 Era Assim", "A Vida Extraordinária de Tarso de Castro", "Grupo de Bagé" e do inédito "Legalidade".
Influências
De acordo com a artista plástica Norma Vasconcellos, o trabalho de Glauco Rodrigues promoveu uma fusão incomparável de elementos. "O trabalho do Glauco mistura a praia carioca com o pampa, pop arte com tradição. Mesmo radicado no Rio de Janeiro, o trabalho de Glauco refletia as cores das paisagens do Sul", avalia. Esses elementos foram fundamentais para o trabalho de Leo Lage. "Tive contato com o trabalho de Glauco Rodrigues a partir do trabalho no documentário do Zeca, 'Grupo de Bagé', e achei o trabalho dele incrível, muito atual", afirma.
Das mais de 100 imagens que Glauco produziu do santo, um fato curioso: nem todas as imagens têm cabeça. A serigrafia usada originalmente como referência pelo Festival da Fronteira mostra o santo decapitado. Para ir ao encontro da proposta do evento, a escolhida em 2018 teve que ser alterada, fazendo de Leo Lage uma espécie de coautor da obra. "Além de cortar a cabeça do santo, o trabalho maior consistiu em juntar a arte do Glauco com as ferramentas modernas", completa. Ao contrário de edições anteriores, onde o vermelho era a cor predominante, em 2018 o verde e o amarelo dão um toque tropicalista à edição de 2018. "Apesar do trabalho do Glauco ser abrangente, universal, ele nunca abandonou o jeito brasileiro de ver as coisas", destaca Norma.
Eternizado em bronze
A obra de Glauco Rodrigues é revisitada, anualmente, através das artes gráficas e ilustra o material de divulgação do Festival da Fronteira. Não obstante, as artes plásticas também marcam presença. O troféu entregue todos os anos aos premiados, é, por si só, uma obra de arte, concebida e modelada pelo artista plástico Sérgio Coirolo, pintor e escultor que viveu 35 anos em Bagé e tem raízes na Rainha da Fronteira. "O festival me procurou para produzir um troféu. O tema era 'São Sebastião Sem Cabeça'. A partir da obra de Glauco e outras imagens do santo, criei esse modelo", explica Coirolo, que lamenta um pequeno detalhe: devido ao tamanho, não foi possível inserir as flechas na obra. "A ideia principal era que o vencedor pudesse vibrar com o troféu, por isso, ele foi pensado de uma forma que, com apenas uma mão, a pessoa possa segurá-lo", conclui o artista, que está satisfeito pelo fato da obra ter sido confeccionada em bronze. "O metal é eterno. Nós não somos", finaliza Coirolo.

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