ANO: 25 | Nº: 6312

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
10/11/2018 Marcelo Teixeira (Opinião)

Pobre de Direita

A derrota da esquerda nos dois últimos pleitos (2016 e 2018) ressuscitou uma antiga ironia repetida por muitos dos derrotados, achando absurdo que pobres sejam de direita, votem em candidatos da direita, defendam princípios que favoreçam aqueles que supostamente os exploram e oprimem. Terminado o último pleito, com o voto decisivo dos pobres em favor da direita, me parece oportuno fazer uma reflexão sobre o assunto.
Fazer essa crítica aos pobres, hoje, além de ser uma ingratidão, ainda falta com a verdade, pois de 2002 a 2014 os pobres acreditaram, apoiaram e elegeram a proposta da esquerda. Sem entrar no mérito do que os levou a mudar de lado agora, a ironia vinda da esquerda, que por mais de uma década usufruiu da confiança dos pobres, é como cuspir no prato que comeu.
Trata-se de uma crítica preconceituosa, dando a entender que eles são burros ou ignorantes ao fazer isso. Mais uma péssima mania da esquerda de querer compartimentar a sociedade em classes e categorias, esperando ou exigindo de todas um comportamento corporativo, achando que mulheres, pobres, negros, professores, operários etc, devem votar assim ou assado. Agindo assim, atiçam uns contra os outros e, no caso dos pobres, sonham em ver a massa ignorante ou oprimida se rebelando contra a burguesia opressora, a velha e almejada luta de classes. Sob o pretexto de livrar a maioria desafortunada da opressão da minoria afortunada, tentam manipular esta maioria para que ela mude de lado, sem avisar que ela continuará sendo manipulada, como ocorreu nos últimos anos.
O genial Joãosinho Trinta disse, certa vez, que "pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual." Uma síntese do que penso sobre este assunto e que não tem como base apenas minhas convicções ideológicas, mas também, e, principalmente, a experiência de vida de meus ascendentes e de tantos outros contemporâneos deles que tiveram a mesma trajetória de vida.
Sou filho de "pobres de direita" e graças a eles e a Deus, nunca passei pelas dificuldades que eles passaram. E hoje tenho uma condição de vida superior àquela que enfrentei na infância. E nunca vi meu pai e minha mãe reclamando do sistema, colocando a culpa na conjuntura política ou econômica do País, nem demonizando os ricos. Pelo contrário, não desperdiçaram nenhuma oportunidade proporcionada pelo sistema ou pelos mais afortunados que eles sempre trataram com muito respeito, tanto quanto faziam com os menos afortunados. Aprendi com eles, na prática, aquilo que Benjamin Franklin ensinou: "Ser humilde com os superiores é obrigação, com os colegas é cortesia, com os inferiores é nobreza."
E assim, sem vergonha de ser pobre e de ter que pedir favores para ricos e poderosos, conseguiram uma bolsa de estudos no Colégio Auxiliadora para que eu pudesse ter uma boa formação, pois sempre tiveram a consciência de que o melhor investimento para quem não tem fortuna financeira é o estudo. Trabalhavam e estudavam em três turnos e, para tanto, me deixavam cuidando dos meus irmãos menores desde a minha infância. Era um esforço de todos, sem exceção, para que conseguíssemos superar os obstáculos, conquistar a casa própria, o primeiro carro e, enfim, uma condição financeira melhor. Era tanto esforço que nem sobrava tempo para reclamar do sistema opressor ou da exploração burguesa. Simples assim! Pobres de direita que se deram bem, que não ficaram de mi mi mi, parados praguejando contra tudo e demonizando os que tinham mais.
Tentar estabelecer relações entre pobreza e "direitismo", pressupõe que a opção política está relacionada à ignorância ou burrice e, pensando bem, pode ser exatamente o contrário, pois, talvez, o fato de não ter estudado – por ser pobre – os privou de ler os livros do MEC, a única fonte de estudo onde a esquerda deu certo. Neste contexto, não ter estudado os livrou de acreditar nesta mentira.

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