ANO: 25 | Nº: 6210

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
15/11/2018 João L. Roschildt (Opinião)

O autêntico meia-esquerda III

Elegância, liderança e serenidade. Essas magníficas características podem ser atribuídas ao ex-jogador e ídolo do São Paulo e PSG, Raí. Durante toda sua carreira, muito em razão de sua estatura e corpulência, aparentava ter uma movimentação lenta, mas entendia como poucos quem deveria se movimentar com extrema velocidade: a bola. Jogava um futebol clássico e completo: tinha bom cabeceio, bons chutes de fora da área e sabia como gerar gols com suas cobranças de falta. Sempre se deslocava de cabeça erguida. Foi um gentleman. E, com essa mesma postura, empilhou títulos.

Após as últimas eleições presidenciais, Raí tentou manter a finesse que lhe é característica. Diante da vitória de Jair Bolsonaro, em entrevista ao jornal francês L’Équipe, o campeão da Copa do Mundo FIFA de 1994 mostrou-se atormentado com a chegada desse político ao poder: “[...] fiquei triste e até assustado quando vi as reações do povo celebrando a vitória de um candidato que já mostrara valores absurdos e repugnantes”, afirmou. De fato. Talvez Fernando Haddad (PT) e Manuela D’Ávila (PCdoB), chapa na qual o ex-atleta declarou voto, fossem a representação de valores louváveis e fascinantes. O apoio histórico aos regimes bolivarianos (socialismo do séc. XXI) esparramados pela América Latina, o endeusamento de líderes sanguinários, a defesa intransigente de grupos armados que invadem propriedades privadas e prédios públicos, a busca pela famigerada regulamentação da mídia, a intenção de legalização de drogas, a marcha em direção a descriminalização do aborto (Haddad se diz contrário, o que não corresponde ao dominante espectro progressista que o circunda) e a ênfase em políticas de desencarceramento podem ser exemplos de grandes concepções públicas que Raí, ao votar em Haddad/Manuela, acabou por sustentar. E assim caminha a democracia, sem espaço para sustos e tristezas: cada qual com seus valores. Claro que, para alguns, só há democracia quando o seu candidato logra êxito...

Na mesma entrevista, ao ser questionado sobre os motivos pelos quais não existe aversão explícita a Bolsonaro no ambiente do futebol, o ex-jogador declarou: “Eu acho que é por falta de cultura, cultura política também”. E adicionou: “O futebol é um reflexo da sociedade. Especialmente seu lado conservador [...]”. Nada mais progressista do que outorgar aos seus antagonistas políticos o estigma de incultos e incivilizados (desde que devidamente relacionados ao conservadorismo). Nada mais simplista do que atribuir à falta de cultura um resultado eleitoral. Até nisso a esquerda terceiriza as responsabilidades.

Quando foi indagado sobre qual seria a reação de seu irmão falecido, o também ex-jogador Sócrates (notável pela “Democracia Corinthiana”, que não era lá tão democrática assim...), diante da atual conjuntura política, Raí disse: “Ele foi e será para sempre um mito, uma inspiração para a democracia e liberdade”. Logo ele, Sócrates, uma pessoa apaixonada por Fidel Castro e que disse que tal ditador representa seu sonho de sociedade (em entrevista a Marília Gabriela). Fidel, democracia, liberdade...

Contam as histórias familiares que o pai de Raí queria que ele recebesse o nome de Xenofonte, célebre figura grega e que era discípulo do filósofo Sócrates. No fim, pouco importa. Raí seguiu muito bem os passos do irmão.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...