ANO: 25 | Nº: 6378

Leitor

23/11/2018 Leitor (Opinião)

Ser negro incomoda

Por Samuel Oliveira
Acadêmico de Jornalismo da Urcamp

Desde a infância, não temos consciência da nossa beleza, da nossa história e ancestralidade. Quando no primeiro contato com o racismo, somos obrigados a odiar quem somos, nossas raízes, nossos traços, buscando em nós um erro que não existe.
Não é errado ser quem a gente é. Errado é essa dívida histórica respingar em nossa pele negra, que tanto faz por um país onde ainda somos a maioria populacional e, ao mesmo tempo, os que mais sofrem com o genocídio do povo negro. A maioria que ainda não se faz presente com igualdade dentro das universidades e que, por consequência, representa mais da metade da população carcerária. Por que a ascensão do povo preto tanto incomoda? Por que as cotas raciais incomodam tanto? Talvez, a resposta seja porque um negro que busca um diploma e vai atrás de conhecimento, tentando contrariar as estatísticas, incomoda mais do que um negro numa prisão.
Ser negro incomoda, ainda mais em um país extremamente racista, que nos lembra diariamente em microagressões, às vezes, até de forma sutil, o quanto o racismo é estrutural e passa, muitas vezes, despercebido em olhares, piadas maldosas e até mesmo no sistema, que deveria nos proteger enquanto cidadãos.
Bárbara Querino é modelo, bailarina, negra e de periferia. Trabalhava como podia para ajudar nas despesas de casa. Ela foi presa há mais 10 meses, condenada a cinco anos e quatro meses por um assalto em setembro do ano passado. Mesmo com fotos, vídeos e testemunhas de que ela não estaria no lugar do crime, para justiça o que valeu foi a palavra das vítimas que dizem reconhecer a jovem pelo cabelo.
Ao saber do caso, chorei. Chorei pelo fato de saber que poderia ser com qualquer um dos meus, inclusive com minhas irmãs, que tem o cabelo igual ao de Bárbara. Chorei ao saber que a justiça é falha e que o racismo, enquanto estrutura, também nos vence. Choro ao saber que, por mais que lutemos para sermos duas vezes melhores que os privilegiados, nossa luta possa ser em vão.

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