ANO: 24 | Nº: 6185

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
24/11/2018 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O plágio literário

Muitos escritores, e bons, não gostam de contar aonde buscam inspiração para suas obras, embora muitas vezes pesquisem ideias em textos consagrados. Isso não é pecado mortal que leve ao confessionário. As oficinas de escrita criativa até recomendam que se “puxe” algo de um bom autor; ou transcreva uma frase dele em outro cenário. Direi: é uma técnica de treinamento, não é conduta ilícita que remeta à tornozeleira.
Plágio acontece quando se adota texto alheiro como seu. Fui vítima de um.
Ao abrir ocasionalmente jornal de determinada cidade flagro texto jurídico que havia publicado noutro periódico, por inteiro “apropriado” pelo dono de coluna, sem qualquer indicação da autoria, mas atribuído ao dito. A atitude fugia ao normal, pois é comum no âmbito acadêmico o uso de trechos de terceiros referenciados. Como diria o saudoso Alemão Nocchi, fui “as barras dos tribunais”. Que me deram razão. E (discreta) indenização paga pelo órgão de imprensa; creio, também pelo indigitado copista.
A escritora Sônia Belloro, que leciona estratégias para iniciante, faz interessante relação de obras que influíram em escritores bem nomeados. Assim, em 1841, Allan Poe escreve um conto considerado o primeiro da literatura policial, “Assassinatos da Rua Morgue”, e como narrador personagem chamado Auguste Dupin dotado de grande argúcia dedutiva. Em 1887, Conan Doyle publica “Um estudo em Vermelho”, narrado por Watson, e Sherlock Holmes tão inteligente e perspicaz como Dupin. Mais adiante, Agatha Christie edita a primeira aventura de Hercule Poirot, da mesma linhagem intelectual que os anteriores.
Em 1865, Lewis Caroll cria uma história para crianças, cuja personagem Alice segue um coelho e acaba no País das Maravilhas. Em 1945, Monteiro Lobato inventa Narizinho que segue um peixe e vai parar no reino das Águas Claras (Lobato foi o tradutor de Caroll).
Vamos para a mitologia? Prometeu foi castigado por Zeus por furtar o fogo e fica acorrentado num penhasco durante toda a eternidade. Pois não é que Mary Shelley gera um médico que dá vida, a partir da matéria inanimada, a Frankstein, perseguido até os confins da Terra.
A lenda do Rei Arthur e seus Cavalheiros da Távola Redonda foi elaborada por Thomas Malory, no século XV, saga que inclui Merlin, Lancelote, a Dama do Lago, a Rainha Guinevere, personagens que revivem em “As brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley, em 1982.
Leram as “Mil e uma noites”, Sheherazade e companhia?  E depois “O homem que calculava”, extraordinário livro que encantou nossa adolescência, escrito por Malba Tahan, na verdade o professor Júlio César de Mello e Souza, que vende milhões de livros que ainda circulam? Paulo Coelho também atraiu os textos árabes em “O alquimista” e alguns seguintes.  
Gostam de romances com detetives durões? Apenas resumo: Dashiell Hammett, 1929, e o sarcástico Sam Spade de “o Falcão Maltês”; Raymond Chandler, 1939 e seu Philip Marlowe de “O sono eterno”; o atual Dennis Lehane, 1994, e o detetive Patrick Kenzie em “Um drink antes da guerra”; Luís Fernando Veríssimo e as divertidas histórias de Ed Mort; isso sem falar no cachimbo e os Calvados do Inspetor Maigret, de Georges Simenon; etc.
Lembram de Guilherme de Baskerville, o religioso esperto como Dupin ou Sherlock (Baskerville não lhe soa como “O cão de Baskerville”; o monje Adso de Melk não lhe parece o Watson, de Doyle)? Acertou na mosca, pois o “O nome da rosa”, de Umberto Eco, cujo título vem de conhecido diálogo entre Romeu e Julieta, é também um proveito de “Zadig”, de Voltaire. O bibliotecário cego não será uma homenagem a Borges, que Eco admirava? E o incêndio da biblioteca não revive a queima da Biblioteca de Alexandria?
E por que dar outros como exemplo? Quando frequentei oficina uma das “tarefas semanais” exigia o uso de frase ou enredo de outros autores. Tenho um (possível) conto (“A viagem”) cujo início é um arremedo da “Missa do Galo”, de Machado de Assis (“ Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora...”.); lá no meio de outro (“Noite de baile”) entremeei palavras com as de Rubén Darío, poeta máximo do modernismo nicaraguense, mas também autor de “Verónica y otros cuentos fantásticos”.
Assim se o leitor (a) almeja o panteão literário leia muito, escreva e pratique muito; e não tenha pejo em imitar algum notável da escrita. Creia: eles também o fazem. E ficam famosos. Mas contenha-se, não exagere.  
Fonte: Sônia Belloto. Você já pensou em escrever um livro? 3e. São Paulo: Fábrica de Textos.

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