ANO: 26 | Nº: 6589
28/11/2018 Luiz Coronel (Opinião)

Lira dos 80 anos


Evito desafiar o tempo
colocando
minhas cartas na mesa.

Ele ganha sempre!

É dono do relógio,
xerife dos ventos,
sota-capataz das estações.

O tempo pediu que
eu beijasse sua mão.
Gritei, lépido e faceiro:
- Hoje não tenho tempo!

Desafiou-me a um duelo.
Ele tem modernos arsenais.
Tenho apenas um corta-unhas
e um canivete de
descascar laranjas.

Entre as vigas da memória
ergui uma muralha
empilhando livros
e entrelaçando abraços.

O tempo enfiou o boné
no cabide do horizonte
concedendo-me, talvez,
meia dúzia de aniversários.

Deu de ombro, advertindo:
- Poupa a gasolina
que não vais tão longe.
O que mais amas
está bem perto de ti.
O que tens a zelar?

- Tenho as lonjuras do Pampa
e a beleza do mar!

E o tempo embarcou
na ventania

*Texto incluso em "80 Poemas esta Noite"

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