ANO: 25 | Nº: 6209

Observatório da Mídia

29/11/2018 Observatório da Mídia (Opinião)

A censura em debate

Foto: Marcelo Rodriguez Barboza/ Especial JM

Por Augustho Soares
Acadêmico do 6º semestre de Jornalismo da Urcamp

O jornalismo voltou a chamar atenção nos cinemas, recentemente, com produções como "Spotlight" (2016) e "The Post" (2018). Os dois filmes abordam fatos distintos. O primeiro, fala sobre a pesquisa que trouxe à tona os casos de pedofilia na Igreja Católica, no início dos anos 2000; já o segundo, retrata a investigação que despontou na descoberta de mentiras governamentais acerca da atuação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, no começo da década de 1970. No entanto, um elo que une esses dois longas-metragens, e talvez seja um dos motivos da repercussão de ambos, é um tema que está em alta nos últimos anos: o combate à censura.
Enquanto em Spotlight a repressão vem por meio da Igreja, que tenta barrar a investigação de repórteres do Boston Globe; em The Post, ela é realizada pelo governo Nixon, o qual cria uma lei específica para proibir investigações sobre o assunto.
Vendo isso, a pergunta que fica é: "Por que essa temática foi abordada nesses dois filmes?". Para algumas pessoas, a questão da censura e as famosas manchetes trocadas por receitas de bolo nos jornais podem parecer distantes da realidade atual, onde todos estamos, 24 horas por dia, conectados com pessoas que, com poucos cliques, teriam como compartilhar a verdade em perfis, em sites de redes sociais.
Porém, assim como o jornalismo se adéqua a essa nova realidade, novas formas de restringir aquilo que é publicado também tendem a surgir. Desde figuras públicas que se recusam a falar com a imprensa, até autoridades escolhendo as perguntas e os jornalistas a quem vão responder, não há como negar que a censura está no meio do jornalismo atual.
Quando alguns líderes políticos ou institucionais convocam coletivas de imprensa e barram certos veículos por adotarem uma postura que os confronta, por exemplo, não são apenas os jornalistas que eles estão impedindo de receberem informações, como também dificultam que uma parcela da população tenha conhecimento daquilo que foi falado nestas ocasiões.
Em alguns casos, a censura também vem através de indenizações com valores exorbitantes, que podem ter como alvo os próprios jornalistas e as empresas onde trabalham. Nestas situações, pode acontecer, inclusive, uma autocensura por meio dos profissionais, que abandonam as pautas por temerem não ter condições de arcar com estes custos.
De acordo com dados da Associação Nacional de Jornais (ANJ), o número de pedidos de remoção de conteúdo por políticos e partidos tende a aumentar em anos eleitorais. Apenas em 2016, foram contabilizados 667 casos no Brasil. Além disso, entre 2008 e 2017, ocorreram 841 casos de ameaças, mortes e atentados contra jornalistas no país.
Segundo uma pesquisa feita, este ano, pelo Conselho Nacional de Justiça (Conjur), as ações envolvendo a mídia representam 25% dos processos que tramitam na Justiça Eleitoral, sendo que quase 60% dos casos relacionados à liberdade de imprensa que chegam ao Judiciário são motivados por alegações de difamação, com pedido de danos morais.
A verdade é que faz parte da profissão ser o cara chato e insistente que confronta aqueles que estão no poder. Ninguém consegue uma boa história apenas com uma ligação por telefone ou dando tapinhas nas costas das pessoas certas.
Dessa forma, não importa se feita pelas próprias empresas que mantêm veículos de comunicação, por políticos da direita ou da esquerda, por grandes empresários, lideranças de entidades ou instituições em geral, a restrição de informações é um mal que deve ser combatido por todos.

 

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